The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Um twitter, um facebook, um blog

Quando comecei a escrever crítica de design há uns dez anos, ainda antes do blogue, a dificuldade era encontrar um modelo de crítica que me agradasse. Sabia que a maioria da crítica que via nos jornais e nas revistas portuguesas não me convencia, porque lia coisas bem mais estimulantes noutras paragens, tanto ao nível do estilo como do conteúdo.

Na escola, ensinavam-nos que a crítica dos jornais (ainda não tinham aparecido os blogues) não era crítica a sério, que a verdadeira crítica era mais profunda, integrava a obra e o autor no contexto mais vasto da história, da prática, da geografia, das ideias assentando numa investigação séria. Quem poderia discordar disto? Leia o resto deste artigo »

Anúncios

Filed under: Crítica

Imposto

cred_fiscal_2

Nem sei como há gente que ainda acredita que destruindo o emprego ao ritmo de 1100 postos de trabalho por dia (segundo a capa do i de ontem) se vai conseguir salvar a economia, pagar a dívida, etc. E ainda percebo menos como há gente que apregoa o desemprego quase como um dever. Na prática fazem do desemprego uma espécie de imposto de 100% a ser paga apenas por trabalhadores. Se verificarmos que para além disto esses desempregados ainda perdem o que descontaram para a segurança social através de cortes, ou que ainda se espera que paguem para trabalhar, o imposto será ainda maior. Cento e tal por cento de rendimento transferido do trabalho para o capital. E como mostra o gráfico acima (via), isto não é apenas uma figura de retórica. Assim, claro que defendo impostos progessivos. 70% para os rendimentos mais altos, e mais ainda no capital e na finança. Ah, assim fogem e levam o dinheiro para outro lado? Boa viagem e encostem a porta ao sair.

Filed under: Crítica

Pois

Deixem-me ver se percebi. O Governo quer despedir um monte de professores porque é preciso cortar na despesa não essencial. Os professores fazem greve a um exame. O Governo diz que isso prejudica os alunos. Tenta convocar serviços mínimos durante a greve. Ora, os serviços mínimos durante uma greve são aplicáveis a questões por natureza urgentes – como no caso dos bombeiros ou dos médicos, por exemplo – não se pode adiar um incêndio ou um apendectomia. Esse é o entendimento do tribunal que indeferiu os tais serviços mínimos. Passos não se conforma e muda a lei dos serviços mínimos. Ou seja, o tribunal diz que o ensino não é suficientemente urgente e essencial para justificar serviços mínimos. O Governo discorda e diz que o ensino é absolutamente urgente e essencial. De modo a que possa despedir um monte de professores porque quer cortar na despesa não essencial.

Filed under: Crítica

Feira de Alfarrabistas

20130615-134303.jpg

Apanhado na Rua Anchietta, finalmente, um dos Luiz Pacheco que me faltavam.

Filed under: Crítica

A Esquerda Selvagem

Embora tenha nascido e vivido a minha infância em Lisboa, mudei-me muito cedo para Trás-os-Montes com os meus pais, profissionais do ambiente. No final dos anos setenta era um sítio escanzelado e extremo. Não era propriamente uma região de esquerda. Em Vila Real, na mesma altura em que a minha família se instalava, um jovem beto chamado Pedro Passos Coelho descobria a política. Mais tarde, quando comecei a comprar jornais, o senhor do quiosque passava-me todas as semanas o saco de plástico do Expresso, exclamando “Mais uma dose de social-democracia”. Chamavam-lhe “O Comunista” como em “Vou ao Comunista comprar uma chicla”. A alcunha usada assim, no singular, dizia muito. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Ed, não: Fred

20130614-170051.jpg

Hoje tentei uma experiência intelectual. Imaginei que Victor Gaspar anda a fazer o que faz com as melhores intenções possíveis. Que acredita sinceramente que a sociedade vai melhorar com o que faz e o que ele faz é cortar, cortar, cortar. Infelizmente, quase tudo o que toca morre. Onde é que eu já vi isto?
Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

O Musgo Verdadeiro que Cresce na Planta de Plástico

Entre os paradoxos mais idiotas da prática governativa neo/ultra/ordoliberal está sem dúvida o papel extremo do Estado como regulador. Supostamente teríamos um modo de governo que governa o mínimo possível e quando o faz seria apenas para garantir a liberdade individual de cada cidadão. Na prática temos um Estado extremamente interventivo, sobretudo na imposição forçada de formas de sociabilização centradas no mercado.

Do ponto de vista das relações sociais, privatizar não trata de eliminar o que é público, mas de limitar a esfera pública a relações que sejam o mais possível mediadas pelo mercado. Ou seja que se possam conceber como transacções económicas. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Manifestação Ensino Superior

Não sei se consigo estar presente no Marquês de Pombal dia 15 às 15 horas, mas vou tentar. Tenho ido a todas as manifestações contra cortes e precariedade no ensino superior, mesmo que não digam respeito aos problemas da minha própria situação, e reparo que é muito raro o professor universitário mobilizar-se. Há dezenas de escalões e escalõezinhos e muita competição aguerrida mas conformada (não é uma contradição). Neste caso, trata-se de defender o pouco que resta.

Abaixo fica o comunicado do sindicato (e não, ainda não sou sindicalizado mas, como já disse, vou tentar ir): Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Crivelli 3

João Miguel Tavares escreveu mais dois textos sobre o quadro renascentista. A nova argumentação resume-se a defender mais uma vez a propriedade privada acima do interesse nacional, a declarar que a lei em vigor tem alíneas abusivas e discricionárias e a defender que esta lei tem más consequências para as próprias obras porque leva os proprietários a escondê-las do Estado não vá ele classificá-las. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Símbolos

id

Tenho andado a fazer estas ilustrações tipográficas (à falta de melhor nome). A ideia é agarrar em coisas subalternas, regularmente achincalhadas e demonizadas e revelar o potencial subversivo que essa descriminação lhes pode dar. Uma analogia: a palavra Punk começou por ser um insulto para depois ser reclamada como uma identidade e brandida como uma bandeira. Dito de maneira mais simples: comecei a sentir um enorme orgulho em ser um funcionário público cada vez que este governo insulta essa classe. recibo verde

Filed under: Crítica

Do Contra

Há dois anos, no Domingo em que Passos Coelho foi eleito, já não consegui aguentar os resultados que iam aparecendo por freguesia e saí à hora do jantar para tomar café. Cruzei-me com um velhote de pólo que me disse “O Passos ganhou.” Respondi: “Sim, o Passos ganhou.”  Ele: “Não, o Passos GANHOU!” Desta vez com dois polegares escanzelados no ar e um sorriso. Eu nem disse mais nada. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Grafitti

20130610-164717.jpg

Quando há uns anos nos mudámos, este grafitti já lá estava, à frente da porta, um dos primeiros numa parede nova. Desde que o vi e demorei uns momentos a decifrar a frase que me transmite o entusiasmo de quem a escreveu, sempre que entro ou saio de casa. Agora, a parede degradou-se e a pintura encheu-se de bolhas e escamas. Naquela parte da parede, a tinta das letras é o único suporte do reboco. Já é quase um alto-relevo. Um dia há-de cair, mas até lá…

Filed under: Crítica

Lá como cá

Não há grandes dúvidas que a arte institucional (estudada e ensinada em escolas, conservada em museus, exibida em feiras e bienais) representa o poder. Agora, a questão será sempre: que género de poder? Numa sociedade plural trata-se de vários poderes, políticos, económicos, religiosos. Se essa sociedade for democrática, essa arte representará a democracia, não no sentido de encontrar objectos que representam uma maioria dentro do gosto (esquecendo ou sufocando tudo o resto), mas o máximo de gostos diferentes que seja possível, com os recursos disponíveis.

Lembremo-nos disto a propósito de um artigo de Nicolau Santos no Expresso desta semana, que se resume a uma peça de propaganda acrítica – excepto num pormenor, mesmo no fim, onde realmente se faz um reparo, bastante duro até. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Iain M. Banks

state of the art

Morreu um dos meus escritores de ficção científica favoritos, Iain M- Banks que também escrevia ficção “séria”, com um pseudónimo minimalista: Iain Banks. Foi por um destes livros, The Wasp Factory, que o comecei a ler no começo da década de noventa. O estilo e o enredo inclassificáveis marcaram-me mas só  o voltei a apanhar mais de vinte anos depois.

Quando consegui fazer a minha primeira encomenda de livros através da internet, Consider Phlebas tinha que vir no pacote, o primeiro livro da série que dedicou à Cultura, uma utopia de esquerda bem sucedida. Não podia ser de outro modo. Desde essa altura, fui lendo tudo o que apanhei dele.

Morreu de cancro em público, uma coisa rara, anunciando a sua doença terminal com sinceridade e até humor. Dizia que eram os seus livros “sérios” que lhe davam o à-vontade financeiro para escrever ficção científica e não o oposto.

Filed under: Crítica

A Glória dos Bastardos

20130609-100458.jpg

Como muitos, fico a cismar que esta gente que nos governa não tem medo de eleições porque ficam sempre a ganhar. O pior que lhes pode acontecer é irem parar ao FMI ou à União Europeia. Dar aulas no mesmo sistema académico que tudo fizeram para destruir ou descredibilizar. O melhor é serem ex-ministros profissionais com tudo o que isso implica. Vão andar por aí como se nada fosse, tirando os guarda-costas que não deixarão de ter.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

O Inimigo Natural do Pior dos idiotas

Em tempos de paz e abundância, podemo-nos dar ao luxo de definir a nossa identidade apenas pela positiva. Um designer ajuda o seu cliente. Contribui para a sociedade. Um médico ajuda os seus doentes. Contribui para a sociedade. Um funcionário público, seja ele designer, médico, arquitecto ou simplesmente burocrata faz parte do sistema operativo de uma sociedade como a nossa. Garante o acesso do comum dos mortais à educação, à saúde, à justiça, etc.

Em tempos de crise, de guerra civil de baixa intensidade, uma pessoa acaba por ser definida pelos inimigos que tem. E o pior inimigo da função pública é este governo. Este preciso governo. Só isso bastaria como argumento.

Filed under: Crítica

O Punk Como Unidade de Medida

20130608-182221.jpg

Apanhei isto no England’s Dreaming, a contextualizar o Verão quente de 76 quando o Punk inglês explodiu em força, uma reacção visceral a um desemprego nunca visto, colapso económico e social:

“It was a time of portents. England’s crisis had become what Stuart Hall calls ‘the articulation of a fully fledged capitalist recession, with extremely high rates of inflation, a toppling currency, a savaging of living standards, and a sacrificing of the working class to capital’. In June, unemployment reached 1,501,976, 6.4 per cent of the workforce, and the worst figure since 1940. The pound dropped below $2 to reach a figure of $1.70. By July, the Chancellor, Denis Healey, was told by the Treasury that he had to cut public expenditure to regain the confidence of the markets.”

Um desemprego nunca visto de 6,4%.

O de cá já chegava para fazer três movimentos Punks.

(E ainda outro dia alguém se queixava que os economistas já consideram baixo um desemprego de 7%).

Filed under: Crítica

O Abominável Homem das Chuvas

gaspar_a_nuvenzita

Há já bastante tempo que tudo o que sai da boca deste Governo é essencialmente conversa de circunstância (falar sobre o tempo), daquela que alguns assaltantes fazem durante um assalto, a sugerir que tudo aquilo é na verdade uma troca bem disposta.

E é óbvio que mais uma vez é uma treta (Via Ladrões de Bicicletas):

mau tempo no gaspar

 

Filed under: Crítica

Destrivializar (links corrigidos)

Richard Mosse: The Impossible Image from Frieze on Vimeo.

Do que vi à distância de Veneza, o que mais gostei foi isto. A ideia é simples, filmar um conflito que dura há anos com uma película sensível a infravermelhos, desenvolvida pelo exército. O verde torna-se cor de rosa. Os rios são de um azul profundo. As imagens de guerra destrivializam-se. Está a uma tonalidade de distância do documentário mas deixou de sê-lo. Consegue a proeza de não fazer a habitual estetização da violência mas antes a estetização da estranheza e da distância que se deveria sentir em relação a ela.

Filed under: Crítica

Crivelli e os Cravas

Volto ao assunto do Crivelli e da crónica de João Miguel Tavares apenas para assinalar que já não tenho paciência nenhuma para o liberalismo bem humorado, seja ele simples, neo ou ultra. (Na verdade, também já não paciência nenhuma para a sua facção Muito Séria – cuja obra de arte máxima é sem dúvida a fotografia de José Manuel Fernandes usada para ilustrar a sua coluna no Público). Já não tenho paciência para ouvir ou ler gente demasiado parecida com o Nilton, cuja filosofia é demasiado parecida com o entusiasmo de uma criança de quatro anos que, depois de uns dias a querer ser bombeiro, descobriu a existência do dinheiro e que tudo tem um preço. A partir daí é só descobrir coisas novas para vender: o carrinho de bombeiros, o papá, a mamã, o Crivelli, os Correios. É um entusiasmo intelectualzinho semelhante ao de qualquer adolescentezinho radical. A única diferença é que está a ser posto em prática à escala real com os recursos de países inteiros ao seu serviço. E não está a dar certo. Ver esta gente a a sentenciar com presunçãozinha satisfeita  o despedimento de mais uns tantos milhares, a venda de mais outro Crivelli, a inundação de mais outro património mundial, a venda de mais outra empresa pública, provoca em mim uma sensação que calculo seja semelhante à de alguém que já se fartou de chegar a casa para descobrir que um familiar vendeu tudo para sustentar um vício qualquer – o roubo já começa a ser menos ofensivo do que as lérias que já se espera para o justificar.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Arquivos

Categorias