The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Terror Humor

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Havia uma tendência de crítica de cinema que insistia em ver certos filmes como um reflexo de medos sociais. Os ovnis dos anos 50 o medo da invasão comunista; os zombies o medo da pobreza; os vampiros as elites predadoras e depravadas.

À nossa crise local não a acompanham imagens pop. Não há dinheiro para construir monstros que tornem mais evidente a deformidade do que nos atormenta.  Leia o resto deste artigo »

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Filed under: Crítica

Arte

Desde há uns meses que acho boa ideia organizar um Festival de Cultura Neoliberal Portuguesa. Como é evidente a artista mais representada será a Joana Vasconcelos com o seu quiosque de pasteis business center cenário de apresentação de uniformes de futebol instalação ruína de transporte público. Mas importa também recuperar alguns clássicos como o filme do Professor Marcelo, uma espécie de cinema outsider feito por um insider, que mistura as piores qualidades do Wes Anderson com as piores qualidades do Ed Wood.

E fazer esse festival teria a virtude de demonstrar que a cultura desponta nos ambientes mais inóspitos. Que mesmo um bando de grunhos de boas famílias engravatados acabam por precisar de cultura de vez em quando, de um filme, de humor, de arte. E, dada a falta de experiência, acabam por construir umas espécie de simulacro abrutalhado, tosco, preconceituoso, um pouco ofensivo, caro. Perante isso, só resta ter uma sensação quase de ternura, como quando se ouve a notícia que uma espécie de aranha elabora esculturas de falsas aranhas nas suas teias.

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Boas Maneiras

1005628_10200718784944782_1394513533_nUma dos sintomas da verdadeira natureza desta crise tem sido a frequência com que se ouvem “jonezadas” – que defino aqui como afirmações públicas, proferidas por alguém de uma classe ou numa posição que se pode considerar elevada, e cujo conteúdo é, apesar (e por causa) das boas intenções, insultuoso para outra classe, mais baixa, de um modo tão casual que chega a ser cómico.

São afirmações que se aproximam do “Porque não comem bolos?” atribuído a Maria Antonieta. Dele só diferem porque não só foram comprovadamente ditas como reiteradas. Não houve qualquer arrependimento mesmo que apenas formal – e esta é característica importante do sintoma. Leia o resto deste artigo »

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Turista na minha própria cidade

Embora trabalhe no Porto, só costumo lá estar três ou quatro dias por semana, onde tento concentrar o mais possível as tarefas. Por falta de tempo, é raro aventurar-me fora do percurso casa-escola-ginásio-casa. O fim de semana ou as férias, passo-os em Lisboa ou em Viagem. Quando, por alguma razão, me demoro mais no Porto, fico com a sensação de visitar uma cidade onde já não vou há décadas.

Esta semana, sem aulas, quase só com deveres de secretaria, pude andar pelo Porto com mais calma. Fui a pé desde a Boavista até São Bento. Comecei pelo Centro Comercial Brasília onde fui buscar dois ou três meses de encomendas acumuladas de BD. Saí pelas traseiras, pela primeira vez em anos, e pude ver que a grande maioria dos corredores está abandonada, com lojas vazias, tapadas por jornais colados ou ocupada com negócios excêntricos como uma escola de tricô onde três senhoras se atarefavam noutras tantas máquinas de tricotar. Leia o resto deste artigo »

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Deveres

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Entre a demissão de Gaspar e a tomada de posse dos novos ministros, foi-me bastante difícil trabalhar. Ficava com a sensação de estar a assistir a uma erupção, uma cheia, uma catástrofe natural, à qual as autoridades acudiam sempre da pior e mais trágica maneira possível, chegando a um ponto, a actual crise, onde a simples possibilidade de se irem embora, de desistirem, chegava para dar uma esperança que rapidamente se extinguiu. No meio de um ataque cerrado e extremo a todas as instituições públicas, torna-se difícil dar aulas no ensino superior (por exemplo) como se não estivesse nada a acontecer.

Alguns dirão que a melhor prova de dignidade e de utilidade é continuar a exercer a nossa função com fleuma e indiferença. Eu acredito que não chega: fazê-lo não se distingue em nada de esperar em silêncio para ver o que acontece. Não basta exercer o nosso dever mas também lutar pelas condições em que é possível exercê-lo. Leia o resto deste artigo »

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Burologia – não negue à partida uma ciência que já conhece demasiado bem

Cada cadeira vale x créditos. Completando cadeiras o aluno vai acumulando créditos. Alcançando um certo número de créditos, fica-se com o grau. A ideia do crédito é facilitar a mobilidade dos alunos entre cursos e entre países. É uma unidade monetária que permite pôr numa escala comum cadeiras de arte, de medicina, de direito, etc. Sabendo isto, percebe-se que se trata de refazer o ensino superior à imagem de um mercado e portanto uma ideia próxima das crenças neo/ordo/ultra/etc/liberais. O crédito de Bolonha é o equivalente académico ao Euro e isso bastaria para pensar duas vezes sobre este sistema. Leia o resto deste artigo »

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Raposas e Galinhas

Para quem do ambiente só conheça a lembrança bucólica dos bonequinhos dos livros de Meio Físico e Social ou de Ciências da Natureza, juntar Energia e Ambiente no mesmo Ministério é tão fácil como instalar uma central nuclear junto a uma aldeia feliz, os habitantes a olharem sossegados e sorridentes as plumas brancas das torres de arrefecimento: basta abrir a caixinha de aguarelas, molhar a ponta do pincel na língua, afiar o lápis vermelho para  dar um tom de rosa às bochechas e pronto. Leia o resto deste artigo »

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Sá da Costa

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Nos últimos dias tem-se lutado freneticamente para manter a Livraria Sá da Costa aberta. As razões para o fecho não são os mesmos aumentos de renda que ameaçam encerrar uns tantos alfarrabistas – e já agora umas tantas associações recreativas –, mas o efeito será provavelmente o mesmo. Desaparece uma livraria e, a julgar pelas rendas pagas na zona, só aparecerá algo naquela esquina se houver gente disposta a pagar muito mas muito dinheiro por isso. Se for um negócio onde o comum dos mortais possa comprar qualquer coisa por um preço acessível: comida, roupa, dormida ou até um livro, será com certeza uma grande empresa com uma grande marca a mantê-lo. Mais ninguém conseguirá. Leia o resto deste artigo »

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História Concisa e Pessoal do Estágio

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Ontem, uma amiga minha enviou-me um mail, indignada, a dizer que o workshop com o qual estava tão animada, em Inglaterra e onde participava o designer Ken Garland, era (nas palavras dela) “tipo Design Geral”. Percebi logo a referência: foi graças ao Design Geral que tomei conhecimento do Menina Design Group e das suas práticas de trabalho Neo-Victorianas. Tratava-se de um mini-estágio não-remunerado, marcado em cima de um feriado, anunciado por um cartaz a imitar o de uma greve geral recente.

E, como vim a saber pouco depois, o que se produzia naquela empresa era design de luxo, um armário imitando um cofre arrombado em ouro maciço (escala real) para vender numa feira de design para milionários (houve uma reportagem na TV); uma espécie de armário estilo Casa da Música violeta com patas douradas de leão barroco que apareceu na capa de um dos cadernos do New York Times e custa umas dezenas de milhares de euros. Leia o resto deste artigo »

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First Things First 500€

O design é uma coisa lixada. Uma amiga minha pagou 500 euros para trabalhar num workshop em Inglaterra organizado por Fraser Muggeridge e com a participação do Ken Garland e descobriu que aquilo é tipo o Design Geral do Menina Design Group, um mini-estágio não-remunerado a fazer trabalho comercial. Como cereja no bolo, 500 euros é mais ou menos o que ela ganha como designer a trabalhar para o Estado aqui em Portugal.

Update: Entretanto ela pediu o dinheiro de volta e já lhe disseram que sim.

(post actualizado)

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A Alheira Recontextualizada

Hoje a comer à pressa numa “Hamburgueria Gurmê” no Chiado, confirmei que um dos chavões mais óbvios do “fast food gurmê” é aquilo que vou designar por alheira recontextualizada. Neste caso, uns croquetezinhos de alheira. Também já apanhei, no Centro Comercial do Campo Pequeno, onde quase todas as lojas da praça da alimentação têm o adjectivo “gurmê”, uma empada de alheira. O primeiro augúrio da praga, visto há muitos muitos anos no Porto, foi a Lasanha da Alheira. Tudo isto sabe bem, é claro, como sabe uma boa alheira. Tirando isso, é pretencioso por definição, agarrando na modesta alheira e promovendo-a a merdice gurmê.

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Ironia Urbana

Em Lisboa, moro muito perto do Terreiro do Paço, da janela das traseiras avisto facilmente as estátuas do arco da Rua Augusta e uma das fachadas de Mordor do Ministério das Finanças. Gosto de ir almoçar meias doses baratas à esplanada do Martinho, enquanto  ignoro o espectáculo triste, literalmente irónico (não é um paradoxo), do outro lado da rua: parte do Ministério das Finanças é agora um bar chamado “Ministerium”; outra parte é o “Museu da Cerveja” (outro bar irónico); algures por ali há um alçapão para o Lisbon Story Center, um “museu” quase sem aspas mas com simulações de terramotos e um nome de convenção de marketing; pelo meio da fachada, há um letreiro a dizer Caixa Geral de Depósitos – não faço ideia se é uma sucursal do banco ou uma loja de soluções em papelão design para arrumar as tralhas da casa.

Tudo isto para falar da Livraria Sá da Costa, centenária, falida, em auto-gestão nos últimos anos, em vias de fechar ainda este fim de semana. Reabrirá como butique, hotelzito ou estaminé gurmê –  chamar-se-á qualquer coisa como “Chá da Tosta”. E é esse o progresso: uma cultura urbana resumida a cafés, pensões e modistas, lojecas todas iguais, diferentes apenas pelo design e pelo slogan.

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O Partido do GIF

Só para o deixar aqui escrito: sou daqueles que acreditam que qualquer acordo seria uma estupidez. As razões: tal como estavam enunciadas as condições pelo Presidente, o “acordo” seria apenas uma maneira de obrigar o PS a aceitar o ajustamento da Troika.

Na cabeça de muita gente, ajustamento e ajuda continuam a ser sinónimos, mas são duas coisas distintas: o primeiro é condição para ir tendo a segunda. Ou seja, é inevitável precisarmos de ajuda. Não é inevitável estarmos a aplicar um ajustamento económico de natureza experimental que está a falhar em toda a linha. Neste momento, precisamos de ajuda por causa da crise inicial e por causa das “ideias” que fomos obrigados a pôr em prática para obter essa ajuda. Leia o resto deste artigo »

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E assim se vai…

Ontem, enquanto corria no ginásio liguei os fones para ouvir um dos telejornais que estavam a passar nas televisões. Não encontrei o audio de nenhum mas apanhei o som de um documentário estrangeiro sobre a crise. Não havia vídeo em nenhum dos monitores mas resolvi ouvir o que pudesse. A maioria era em inglês com algumas frases em (presumo eu) islandês.

Falou-se da dívida (o que não é novidade) mas também se falou dos problemas da economia real estar cada vez mais sujeita a um sector financeiro hipertrofiado. Já no Austerity: The History of a Dangerous Idea, de Mark Blyth, se encerrava com a ideia que o sector financeiro acabaria por ter que ser drasticamente cortado por ser insustentável, sacrificando o resto da sociedade em nome dos seus interesses. Leia o resto deste artigo »

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Onde se descobre que o neoliberalismo puro nem numa empresa funciona

Fazer do Estado e da própria sociedade uma empresa ou, mais exactamente, desfazendo-os num conjunto de empresas, às vezes de uma pessoa só, competindo saudavelmente entre si é a grande utopia neo/ordo/ultra/etc/liberal. Ao contrário de uma grande hierarquia que planeia tudo centralmente, fica-se com uma organização espontânea, mais eficiente, que, se deixada em paz, emerge naturalmente das interacções do mercado. Leia o resto deste artigo »

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Fila

Por incrível que pareça, o artigo que mais gostei de ler este mês é sobre esperar na fila num aquaparque, mais precisamente sobre esperar numa fila e gostar de o fazer. É escrito por um pai que ensina o filho a esperar e, enquanto espera, a estar com as pessoas, a conhecê-las, gente tornada igual pelo fato de banho mas também  perante o dispositivo de igualdade social que é a fila. Não interessa quem se é, onde se nasceu, com que dinheiro ou falta dele, apenas a ordem de chegada. Leia o resto deste artigo »

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Designers, não sejam jonets

Ainda é comum ouvir designers a dizerem casualmente que um estágio é importante. E que não envolve vantagens para o atelier que o promove. Lucro? O estagiário chega com tão pouca preparação que só tê-lo ali, a empatar, até é um favor que se lhe está a fazer. Aliás, nem é um favor: é um privilégio. É melhor que andar por aí sem nada para fazer. É uma oportunidade para fazer currículo, etc. E às vezes nem é o atelier que quer estagiários mas os próprios designers que se oferecem para trabalhar lá, que insistem, insistem.

E tudo isto é, como deveria ser evidente, uma treta.

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Só novidades…

O Menina Design Group foi parar outra vez à televisão, desta vez (e finalmente) como mau exemplo. Recapitulando: é uma empresa que se dedica a fabricar e promover objectos de luxo usando o trabalho não-remunerado de estagiários. No fundo e se virmos bem uma aplicação descarada e à letra das políticas do nosso governo. Aliás, como diz um dos representantes da empresa, eles até cumprem. As regras é que são escandalosas. Talvez por isso, só agora é que uma coisa destas foi investigada a sério.

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Amarga Vitória

Acho curioso que se diga que isto foi uma vitória política de Paulo Portas. Espere-se uns dias, até ao homem abrir a boca ou começar a fazer qualquer coisa concreta. Diga o que disser vai dar para o torto. Leia o resto deste artigo »

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Fanáticos entre os Fanáticos

As últimas semanas da crise europeia têm sido de purificação. Na troika, por exemplo, tenta-se deixar pelo caminho quem mostra dúvidas, neste caso o FMI. E repare-se que são apenas dúvidas teóricas e morais; na prática a instituição continua a aplicar as medidas do costume.

Por cá, o Bom Aluno Gaspar saiu deixando uma carta de demissão cheia de dúvidas. Portas aproveitou a aberta para se pôr a mexer mas foi rapidamente disciplinado. Apesar das dúvidas, a sua presença é essencial para manter este governo e estas políticas a carburar.

Neste momento atingiu-se o ponto do “funciona enquanto e porque se diz que funciona”. Tornou-se a austeridade neoliberal numa fé purificada, a bem ou a mal, da dúvida. Num fundamentalismo.

Já nem interessa muito se é fé real ou se é charlatanice imposta a outros. Só interessa que não funciona: economicamente, moralmente, etc. Tornou-se numa religião fanática e destrutiva, sem margem de salvação.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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