The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aníbal Gaspassos

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Desde que comecei a ir mais a Lisboa que me enerva ouvir muita gente, de esquerda mais ou menos difusa, a elogiar Rui Rio. Porque tem as contas em ordem. Porque foi contra os “interesses instalados”. Por interesses instalados, calculo que estejam a falar do futebol. E calculo também que haja algum clubismo à mistura, mesmo que apenas instintivo. Ou seja, para muita gente Rui Rio é o político que enfrentou com sucesso não o futebol mas o Futebol Clube do Porto. infelizmente, a realidade é a oposta, Rui Rio é o homem que enfrentou com sucesso o futebol. O Futebol Clube do Porto é apenas o representante mais visível da coisa na cidade que Rui Rio dirige.

É sabido que Rui Rio desconfia da cultura, que acredita ser apenas uma maneira de extorquir dinheiro à autarquia e aos contribuintes. Neste sentido, para Rio o futebol é cultura.

Quando alguém me diz que admira Rui Rio, só lhe digo que adorava que o pusessem na Câmara de Lisboa. Ou até como Primeiro Ministro. De repente, os Lisboetas iam descobrir que havia muito mais cultura na cidade do que imaginavam. Bastava estarem atentos a tudo o que ia desaparecendo substituído por piroseiras gurmê. E sim, sei que Lisboa tem Joana Vasconcelos e Catarina Portas, mas estamos a falar de um nível à parte de mau gosto.

E, já agora, não aprecio futebol, mas vou arriscar que se Rui Rio vier parar a Lisboa na qualidade de autarca, e se por acidente ele for adepto de um clube qualquer da capital (não faço ideia), será bastante evidente o grau de isenção que demonstrará. Afinal, ele é o homem que acha o futebol um sorvedouro de dinheiro e enterra milhões nos carrinhos e nos aviões, parando a cidade sempre que possível para mais outro cortejo de calhambeques. ou entope as praças de ranchos folclóricos amplificados por altifalantes esganiçados e crepitantes. Ou cede Teatros Municipais com prejuízo para passar versões requentadas de filmes de Hollywood passados a musicais e traduzidos para revista à portuguesa. Dois pesos e duas medidas.

Se conseguiu deixar a Câmara com as contas em ordem é porque a sua câmara não fez tudo o que uma câmara deveria fazer. Sobretudo na área da cultura. A cidade que deixou resume-se a umas poucas instituições culturais de grandes dimensões e a espaçozinhos de vão de escada, sem nada pelo meio. Se a cidade parece vibrante é apenas pelo turismo low cost que Rui Rio preferia substituir por turismo de luxo piroso. Veja-se a transformação do Mercado do Bom Sucesso em hotel, que era o destino previsto para o Mercado do Bolhão.

Isto para além de usar o dinheiro dos contribuintes para atacar inimigos no seu jornal municipal, de processar gente que lhe chama nomes, de ilegalizar o grafitti. De mandar polícia de choque contra gente que faz trabalho de proximidade com comunidades em escolas abandonadas desde há anos. De preferir mais um café a uma biblioteca pública.

Ou seja, se já estão fartos de Passos, Gaspar e Cavaco, não consigo perceber como preferem uma síntese dos piores defeitos de cada um deles.

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Filed under: Crítica

7 Responses

  1. Marco Costa diz:

    Querem saber quem é o novo primeiro ministro? Perguntem aos benfiquistas… :p

  2. António Pereira diz:

    Esse desconhecimento da gente de Lisboa só pode mostrar desinteresse em relação à política fora da capital.
    O Rui Rio é uma farsa, tem as contas equilibradas se não se tiver em conta o balanço dos gastos da Porto Vivo e da S.R.U. (está para breve o relatório de contas).
    Tem as contas equilibradas tendo em conta que o orçamento para a “cultura” na cidade do Porto nos últimos 9 anos foi de 11 milhões de euros (para dar uma ideia do montante ridículo que é, basta pensar que para a corrida de carros da boavista, deste ano, a camara investiu 3milhões de euros).
    Tem as contas equilibradas tendo em conta que o executivo de Rui Rio foi o que na CM.Porto mais reduziu em número de pessoal (o que não é bom, a meu ver), mas afinal nem por isso a folha de despesas em remunerações baixou (e não é porque o trabalhador médio da câmara do Porto está a ganhar mais…).
    Por muito que gostasse que toda a gente tivesse uma ideia mais clara da farsa que ele é o que eu preferia realmente é que nas próximas eleições (ou nas eleições que estão próximas), os cidadãos se abstivessem de votar CDS, PS ou PSD e votassem num dos 15 partidos restantes. Caso contrário a corrupção no poder nunca será uma coisa do passado.

  3. Mas, afinal de contas, que comarca elegeu este edil três vezes consecutivas? Por vontade popular, o Porto quis Rui Rio. Over and over and over again. Certo?

  4. Desde que se encontre uma alternativa, sufragada, a essa treta. Ou então um putsch, mas não vejo esse grande movimento popular a acontecer. Pelo menos, por ora. Durante estes anos, no caso concreto do Rui Rio que é o que foi aqui chamado à liça, não houve quem o soubesse fazer. Manifestamente. Nem a mítica sociedade civil, nem as cabeças pensantes, muito menos qualquer assomo de vanguarda ideológica e estética. Essa é pois a realidade política, social, e cultural do Porto. Quer se queira quer não. E diz, certamente, muito sobre quem dele faz parte. Por outras palavras, cada povo tem o governo que merece. No Porto, Lisboa, Portugal e, claro, mais além.

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