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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

História Concisa e Pessoal do Estágio

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Ontem, uma amiga minha enviou-me um mail, indignada, a dizer que o workshop com o qual estava tão animada, em Inglaterra e onde participava o designer Ken Garland, era (nas palavras dela) “tipo Design Geral”. Percebi logo a referência: foi graças ao Design Geral que tomei conhecimento do Menina Design Group e das suas práticas de trabalho Neo-Victorianas. Tratava-se de um mini-estágio não-remunerado, marcado em cima de um feriado, anunciado por um cartaz a imitar o de uma greve geral recente.

E, como vim a saber pouco depois, o que se produzia naquela empresa era design de luxo, um armário imitando um cofre arrombado em ouro maciço (escala real) para vender numa feira de design para milionários (houve uma reportagem na TV); uma espécie de armário estilo Casa da Música violeta com patas douradas de leão barroco que apareceu na capa de um dos cadernos do New York Times e custa umas dezenas de milhares de euros.

Desde então, a Menina Design Group voltou a aparecer na televisão, agora como mau exemplo, devido à denúncia da plataforma Ganhem Vergonha. Tornou-se um dos piores exemplos da economia da crise: produtos de luxo concebidos, produzidos e vendidos por mão de obra precária, gratuita, que muitas vezes paga para trabalhar.

Em 2011, ainda não fez dois anos, ainda se lidava com estas situações com sussurros indignados, não fosse haver algum processo. Desde essa altura, o ambiente é bem mais crispado e a desconfiança tornou-se a reacção por defeito. Uma amiga minha emigrada ligou-me a perguntar se devia levar a sério o pedido do patrão para ficar a trabalhar fora de horas, era uma excepção, a empresa estava a começar, etc. Acedeu, contra os seus instintos, treinados pelo mercado de trabalho tuga. E fez bem, porque era um pedido genuíno de ajuda.

A indignação torna-se numa ética que já faz concorrência com o medo e o cinismo. É um desenvolvimento recente. Quando fiz o meu primeiro estágio, durante um Verão há uns vinte anos atrás, achei aquilo tudo muito estranho, mas nem tinha vocabulário para me queixar. Comecei o blog dez anos depois, quando já dava aulas nas Belas Artes. O estágio era um assunto difícil porque muitos dos meus colegas empregavam alunos e ex-alunos como estagiários. Nos primeiros tempos, não escrevia sobre o assunto mas, por brincadeira, inventei uma unidade monetária para os estágios, a Tuta —porque se ganhava Tuta e Meia. Valia, salvo erro, cinquenta euros.

Entretanto, em Junho de 2006 escrevi pela primeira vez sobre estágios, no ambiente relativamente seguro e anónimo dos comentários de um blog internacional. O Michael Bierut publicou um texto a denunciar o Spec Work, situações onde clientes solicitam trabalho total ou parcialmente gratuito a designers. Usando um pseudónimo perguntei qual era a diferença entre isso um estágio não-remunerado. Ninguém me soube responder, excepto repetindo o mesmo que já me tinham dito quando estagiava: um estágio é uma boa oportunidade para aprender, portanto não é exploração, etc. – um argumento que também podia ser usado pelos clientes em relação ao Spec Work, como eu já tinha chamado a atenção no meu comentário original.

Pouco depois, em Agosto de 2006, escrevi o meu primeiro texto no Ressabiator dedicado ao estágio. Desde essa altura, a minha opinião não mudou muito. Na altura, ainda achava que um estágio curricular era uma boa maneira de combater os estágios abusivos. Agora, começo a achar que são apenas uma maneira de deixar os alunos serem assaltados num ambiente familiar e confortável do que lá fora na rua sozinhos.

Entretanto, fazendo alguma pesquisa história<, descobri que o ensino público de tipografia começou precisamente para combater os problemas e os abusos da aprendizagem feita exclusivamente através de estágios em oficinas. O ensino público do ofício era um modo de garantir a qualidade mínima dos profissionais enquanto se eliminava a possibilidade das gráficas usarem a mão de obra do estágio para fazer concorrência. Agora, décadas depois, o estágio volta em força, aproveitando e estimulando a degradação das instituições de ensino públicas.

Penso que o estágio só começou a ser publicamente mal visto em 2011, com a música dos Deolinda e o nascimento da Geração à Rasca. De repente, percebia-se que o estágio já não era um intervalo entre a escola e o emprego, um espaço negativo, mas um modo de vida, com regras, éticas e identidades. O buraco entre empregos tinha-se expandido até conseguir alojar um país inteiro. Já não era fundo mas figura.

(Este post é uma espécie de cronologia afectiva do estágio, que faço para tentar perceber como eu próprio pensei o assunto nos últimos vinte anos)

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Filed under: Estágios

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