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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sá da Costa

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Nos últimos dias tem-se lutado freneticamente para manter a Livraria Sá da Costa aberta. As razões para o fecho não são os mesmos aumentos de renda que ameaçam encerrar uns tantos alfarrabistas – e já agora umas tantas associações recreativas –, mas o efeito será provavelmente o mesmo. Desaparece uma livraria e, a julgar pelas rendas pagas na zona, só aparecerá algo naquela esquina se houver gente disposta a pagar muito mas muito dinheiro por isso. Se for um negócio onde o comum dos mortais possa comprar qualquer coisa por um preço acessível: comida, roupa, dormida ou até um livro, será com certeza uma grande empresa com uma grande marca a mantê-lo. Mais ninguém conseguirá.

Quase de certeza não será uma livraria mesmo que duma grande cadeia. No Chiado ainda existe a Fnac e a Bertrand, grandes livrarias no sentido literal, sempre cheias de gente e de novidades. Contudo, fora do centro de Lisboa mesmo as Fnacs e as Bertrands tendem a ficar cada vez mais pequenas. Por vezes até desaparecem. Vou há anos à Fnac de Santa Catarina no Porto e a secção dos livros mirra de ano para ano. A secção de design é agora minúscula, duas ou três prateleiras com algumas capas viradas para fora para ocupar mais espaço. A de banda desenhada (que no Chiado ocupa uma sala) resume-se a duas estantes com muitas coisas repetidas. A única secção que aumenta é a de livros infantis, tão grande como as de literatura portuguesa, estrangeira, poesia, teatro, ficção científica, todas juntas.

O que concluir disto? A Fnac típica vai-se aproximando cada vez mais de uma livraria/papelaria cada vez mais pequena no meio do negócio principal que é vender computadores, televisões, impressoras, discos rígidos e máquinas fotográficas. Dos livros, sobrevivem melhor as secções das novidades generalistas e a infantil. Calculo que isto aconteça porque são os produtos que não compensa mandar vir pela net, um hábito que para quem lê em Inglês ou gosta de coleccionar livros antigos se tornou natural.

Neste momento, leio a maioria da literatura de língua inglesa usando o computador, o iPad, o iPod ou até o meu telemóvel LG. É bastante barato e posso começar a ler um livro segundos depois de ler uma crítica sobre ele, sem sair do cama sequer.

As livrarias que ganham com este novo ambiente são aquelas cujos livros por uma ou outra razão não são digitalizáveis (porque são antigos, porque são experimentais, porque precisam mesmo de ser vistos antes de serem comprados), que se especializam num determinado género (se conseguirem ganhar o seu público, claro), porque são elas mesmas experimentais e performativas, juntando ao negócio dos livros, arte, filme, música, performance, etc. A livraria como espaço comissariado foi um modelo comum durante a última década. A Sá da Costa, nos seus últimos anos de auto-gestão, aproximava-se deste modelo.

Ou seja, pedir condições para manter a Sá da Costa aberta não é apenas pedir a defesa de um património mas pedir condições para que seja possível em Lisboa um tipo de cultura associada ao livro que é comum em Berlim, Nova Iorque, na Holanda ou em Inglaterra. Não se trata de reclamar o passado como património inerte e congelado mas de o actualizar de um modo que seja mais dinâmico e interessante, vivo, de um modo que nunca será possível cedendo o espaço a mais um hotel, franchise de roupa, de comida ou objectos vintage.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Eva Gonçalves diz:

    Interessante falares na Fnac e em Berlim. Por aqui a Fnac abriu em 1991 e fechou em 1995. Aparentemente o negócio não era suficientemente lucrativo…
    E em compensação, em Berlim, ao contrário de Lisboa, as pequenas livrarias especializadas e independentes continuam a existir e mesmo a multiplicar-se.

  2. António Gonçalves diz:

    mas em Berlin há “gente” e não gentinha… que acha piada exigir tudo sem nunca ter feito nada para ter uma Sá da Costa ou outra coisa qualquer … alguns nem um livro compraram em toda a sua vida na Sá da Costa…. Mas agora a Sá da Costa é deles de toda a vida ….

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