The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Deveres

tumblr_mqgtor73XC1qz7lxdo1_500

Entre a demissão de Gaspar e a tomada de posse dos novos ministros, foi-me bastante difícil trabalhar. Ficava com a sensação de estar a assistir a uma erupção, uma cheia, uma catástrofe natural, à qual as autoridades acudiam sempre da pior e mais trágica maneira possível, chegando a um ponto, a actual crise, onde a simples possibilidade de se irem embora, de desistirem, chegava para dar uma esperança que rapidamente se extinguiu. No meio de um ataque cerrado e extremo a todas as instituições públicas, torna-se difícil dar aulas no ensino superior (por exemplo) como se não estivesse nada a acontecer.

Alguns dirão que a melhor prova de dignidade e de utilidade é continuar a exercer a nossa função com fleuma e indiferença. Eu acredito que não chega: fazê-lo não se distingue em nada de esperar em silêncio para ver o que acontece. Não basta exercer o nosso dever mas também lutar pelas condições em que é possível exercê-lo.

Em relação ao design gráfico, esta é uma crise que deveria obrigar a uma exame muito atento dos seus fundamentos. Embora se veja o design gráfico quase exclusivamente como uma profissão liberal exercida por empresas para empresas (logos, identidades corporativas, etc.), a sua base de sustento e divulgação em Portugal foram as suas ligações ao Estado, tanto como cliente directo (governos, câmaras, etc.) como patrocinador de clientes (instituições culturais, fundações, etc.). A grande maioria do trabalho de referência da história do design português foi feito para o Estado. Apesar da sua aparente autonomia, o design tem funcionado como uma serviço “exterior” do Estado.

Mesmo a legitimidade institucional do design depende do Estado, na medida  em que deriva da regulação pública do seu ensino. Este ensino garante a acumulação e transmissão de um corpo de conhecimento e de uma identidade, bem como o desenvolvimento e identificação de novas estratégias, tendências e problemas.

Desaparecendo mesmo que parcialmente o apoio do Estado, tanto ao nível de encomendas como de protecção e apoio do ensino, a identidade do design irá sofrer transformações extremas – o mesmo se pode observar na arquitectura, onde os problemas são maiores e mais traumáticos.

Penso que só será possível resolver estes problemas deixando de ver o apoio do Estado como uma esmola ou um direito, mas tentando recuperar as funções públicas e cívicas do design. Ou seja, de lutar contra a ideia que o design é luxo, publicidade ou cosmética empresarial. Não é uma ideia nova. Historicamente, há muitos exemplos destas preocupações necessariamente políticas.

E é claro que não basta mudar a função do design mas também o modo como ele é exercido: não se pode defender uma ética de serviço público enquanto se encara o estágio não-remunerado como uma etapa fundamental da formação da identidade de um designer.

Não basta lutar por um Governo melhor se não estivermos dispostos a fazer o mesmo na nossa área de acção. Não é nos dias melhores e mais estáveis que se concebem e testam estratégias mas em alturas de crise como esta.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: