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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Turista na minha própria cidade

Embora trabalhe no Porto, só costumo lá estar três ou quatro dias por semana, onde tento concentrar o mais possível as tarefas. Por falta de tempo, é raro aventurar-me fora do percurso casa-escola-ginásio-casa. O fim de semana ou as férias, passo-os em Lisboa ou em Viagem. Quando, por alguma razão, me demoro mais no Porto, fico com a sensação de visitar uma cidade onde já não vou há décadas.

Esta semana, sem aulas, quase só com deveres de secretaria, pude andar pelo Porto com mais calma. Fui a pé desde a Boavista até São Bento. Comecei pelo Centro Comercial Brasília onde fui buscar dois ou três meses de encomendas acumuladas de BD. Saí pelas traseiras, pela primeira vez em anos, e pude ver que a grande maioria dos corredores está abandonada, com lojas vazias, tapadas por jornais colados ou ocupada com negócios excêntricos como uma escola de tricô onde três senhoras se atarefavam noutras tantas máquinas de tricotar.

Já na Rua de Cedofeita percebia-se que o turismo se tinha infiltrado do centro quase até à Boavista, com bicicletas, carrinhos de bébé, mochilas e máquinas fotográficas. Alguns grafitti políticos tinham sido tapados pelos tons opacos e militares do Rui Rio. Dantes, havia um em Cedofeita, assinado pelo Bloco de Esquerda alertando para umas dezenas de famílias a viver por trás do muro onde estava pintado. Agora era cinzento espesso e opaco, com restos de cartazes meio arrancados.

Deveria haver (pelo menos) uma salvaguarda que impedisse as leis anti-grafitti de censurar mensagens políticas, que costumam ser pintadas não em casas habitadas ou negócios mas paredes e muros devolutos, e portanto não incomodam nada excepto as más fés e consciências.

Mais para o centro o turismo torna-se denso, próximo ao que empasta a zona da Sé em Lisboa ou as Ramblas de Barcelona. É difícil andar sem andar sempre a chocar com turistas que mudam de direcção e especam sem aviso como moscas distraídas. Em sítios como a Rua da Fábrica, cujo nome denota utilidade, as livrarias escolares, as serralharias, as montras com próteses e batas, perdem terreno para pizzerias com a montra decorada com rolhas e espacinhos onde uma pequena barrica com uma garrafa de vinho solitária convida o turista a entrar.

Percebe-se que o Porto assim descambe, depois de anos a ser gabado nas secções turísticas da imprensa. Nem acredito muito em definir uma cidade por critérios como a “autenticidade” que costumam ser empregues por gente que só se distingue de um turista porque julga os sítios onde vai (e onde não vive) em termos de “autenticidade”. As cidades sobrevivem do que podem.

Ao chegar à estação de S. Bento gastei, sem querer e de surpresa, 2 euros e meio numa sandes mista em pão de água.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Diogo diz:

    Ontem em frente a são bento gastei também 2,5 euros num pão com queijo. Perguntei mesmo à senhora se não se tinha enganado e pedi para consultar a lista de preços. Era mesmo verdade!

  2. Menino Design diz:

    Tudo mudará brevemente com a inauguração dum Museu do Design Portuense anunciado para a zona da Ribeira pelo sr dr designer y engenheiro Nuno Sá Leão, presidente do aferido Museu e de um muy misterioso e quiça maçonico-bucólico Conselho Português de Design.

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