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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Boas Maneiras

1005628_10200718784944782_1394513533_nUma dos sintomas da verdadeira natureza desta crise tem sido a frequência com que se ouvem “jonezadas” – que defino aqui como afirmações públicas, proferidas por alguém de uma classe ou numa posição que se pode considerar elevada, e cujo conteúdo é, apesar (e por causa) das boas intenções, insultuoso para outra classe, mais baixa, de um modo tão casual que chega a ser cómico.

São afirmações que se aproximam do “Porque não comem bolos?” atribuído a Maria Antonieta. Dele só diferem porque não só foram comprovadamente ditas como reiteradas. Não houve qualquer arrependimento mesmo que apenas formal – e esta é característica importante do sintoma.

A Jonezada mais recente foi largada por uma senhora de posses, em férias na Comporta, num artigo da Revista do Expresso: dizia que ali se vivia num “estado mais puro”; era como se estivesse a “brincar aos pobrezinhos”.

O mais interessante não é tanto o que a senhora disse mas o efeito que isso teve sobre quem o ouviu em primeira mão e transcreveu: repare-se que o jornalista sentiu a necessidade de acrescentar que aquilo tinha sido dito “meio a brincar” – um coloquialismo curioso porque, neste caso, não se percebe bem o que quer dizer: será que a senhora estava “meio a falar a sério” ou será que aquilo era só “meia piada” porque tinha ficado pelo caminho, despenhando-se enquanto ganhava velocidade muito antes do fim da pista?

Não se percebe. E  (na minha opinião) a ambiguidade é importante porque é aquilo que o repórter queria transmitir: poderia ter dito, de modo mais rigoroso mas potencialmente mais ofensivo para a senhora, que “não sabia muito bem o que dizer daquilo”.

De facto, estava a tentar atingir um compromisso entre o que pensava e aquilo que era socialmente aceitável dizer em voz alta naquela ocasião – que é como quem diz: estava a tentar ser delicado. E foi precisamente isso que a senhora não fez.

Para isso seriam precisas boas maneiras, alguma educação, não daquela que obviamente aprendeu e  lhe permite integrar-se dentro da sua própria classe mas daquela que lhe permitiria conviver com outras: com menos dinheiro, outra religião, outros gostos, outras convicções.

É de mau tom macaquear um conviva à sua frente durante uma ocasião social. Falar a um jornal é uma ocasião social, mais exactamente uma ocasião pública, ou mais exactamente democrática. Portanto seria conveniente algum cuidado. Não só não macaquear gente que está a ver como não dar a entender que a macacada quase que é elevada a um estilo de vida: que as privações podem ser uma espécie de minimalismo e que a fome forçada é uma boa inspiração para uma dieta.

O protocolo que se usa nestas ocasiões é o chamado “politicamente correcto”, que poderia ser descrito como um “civismo preventivo”.

Diz-se muito mal do “politicamente correcto” – porque impede o discurso informal, a espontaneidade, o piropo, a piadola; não sei se alguma vez ouvi alguém defendê-lo. Eu sou um fã. Como qualquer sistema de boas maneiras, protege do embaraço e não exige pensamento nenhum. Faz aquilo que este blog tenta fazer: ” se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes.”

Disse ao começo que a “jonezada” era um sintoma da verdadeira natureza desta crise. É-o porque marca uma degradação do “politicamente correcto”. A etiqueta necessária para lidar com outras classes está a desaparecer onde há mais dinheiro e mais poder, o que é sem dúvida  um sinal de exclusão e desigualdade.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. embaixatrizes do mete nojo…

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