The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Terror Humor

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Havia uma tendência de crítica de cinema que insistia em ver certos filmes como um reflexo de medos sociais. Os ovnis dos anos 50 o medo da invasão comunista; os zombies o medo da pobreza; os vampiros as elites predadoras e depravadas.

À nossa crise local não a acompanham imagens pop. Não há dinheiro para construir monstros que tornem mais evidente a deformidade do que nos atormenta. 

Mas se tivéssemos meios, que ficções seria possível construir sobre esta gente, estes banqueiros, estes políticos?

Que monstro representaria um discurso enrolado e dúbio, onde se vai percebendo com cada vez mais medo que nem sequer é um discurso, apenas sons assoprados quase no timbre de uma voz ponderada. Mas quando tentamos isolar o que é dito, são só fonemas soltos, familiares mas escorregadios, como quando se repara aos poucos que alguém fala russo e não português na mesa ao lado.

São apenas camuflagem, subterfúgio,  simulação de fala. Imaginem um abutre, um necrófago, que imita a voz humana melhor do que um papagaio. Um predador envolto num zumbido de som, de texto simulado. Não se lhe foge comentando-o, criticando-o, ou apontando-lhe as falácias. Porque isso não interessa de todo; não é assim que ele mata. O som só serve para atordoar as vítimas; é outra coisa que as termina.

Dada a falta de meios não temos outro remédio senão combater o monstro no próprio território onde ele se disfarça melhor, no meio destes sons e destas palavras, através de ironia, sarcasmo, humor. São estas modalidades que melhor representam o monstro: a stand up comedy, a crónica sarcástica são o nosso filme de zombies  ou de ovnis.

São géneros que tornam palpável o absurdo da camuflagem do monstro, revelando as suas estratégias de subterfúgio, de caça. Rimo-nos mas é o mesmo riso nervoso que se tem ao ver um filme de terror. Percebemos porque Kafka se considerava um humorista.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Dário C. diz:

    Acho que um filme de palhaços podia calhar bem. Palhaços com problemas, todos em torno de um circo grande e antigo. Por vezes morriam umas crianças, ou então uns palhaços mais novatos, em modos suspeitos e tal. Saíamos da sala de cinema sem ter percebido bem a coisa, mas cheios de medo.

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