The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cortes

Soube hoje pelo Público da última catanada do Governo ao Ensino Superior público: não só as Finanças põem um limite à quantidade de receitas próprias que as universidades e politécnicos podem captar, entre propinas e apoios europeus a projectos de investigação, como uma parte do dinheiro que conseguirem ganhar vai ficar retido pelo Governo. O objectivo evidente é obrigar a despedir. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Uma Discussão com Gente a Viver Lá Dentro

20130826-143218.jpg

De volta à Aldeia da Luz para a segunda semana da residência. Embora tudo esteja igual, parece que passou muito mais tempo enquanto estive fora. Continua a ser difícil não sentir uma obrigação de estranhar tudo, mas tento evitá-lo. Não quero vir aqui como um cangalheiro ou um biógrafo póstumo. Não tenho a pretensão de vir aqui inventariar, compreender, explicar esta gente. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Para todos os gostos

1069421_10201817798149333_151882076_n

Henry Ford dizia aos seus clientes que lhes pintava os carros da cor que quisessem desde que fosse preto. Nestas autárquicas vou votar pela primeira vez no Porto e cada vez que olho para um outdoor de campanha lembro-me de Henry Ford. Ou melhor, tento esquecer-me que daqui a uns meses vou ter que votar nestas eleições.

Hoje no Expresso alguém comenta os “melhores” outdoors, um pretexto para fazer pouco, mas é quase impossível. Com variações mínimas de cor, slogan ou quantidade de candidatos, nunca houve uma campanha tão minimalista. É tudo igual, tirando variações no modo como a textura da pele e o cabelo do candidato foram tratados. Só se pode gozar com o nome dos candidatos, um slogan mais patego ou um deslize mais óbvio do photoshop. De resto, parece que estamos a comprar iogurtes de marca branca.

Depois deste esforço colectivo dos partidos para nos convencerem que nada disto faz diferença, haverá abstenção em massa e os comentadores serão pagos para lamentarem a falta de participação do povo português neste momento de crise, e que portanto esse povo merece tudo o que de pior lhe possa acontecer.

Filed under: Crítica

É isto ou equivalente

Gosto de ver The Newsroom embora não perceba muito bem porquê. Diria que é um prazer culpado mas a classificação não faz sentido. É uma série tão bem intencionada que seria como ser vegan às escondidas e pela calada da noite. Os personagens falam muito, disparam tanta resposta espontânea, tanto conhecimento trivial que ao fim de algum tempo já só se ouve o ritmo , assumindo que estamos a ver gente muito inteligente a esgrimir num nível de competência absurdo, uma versão oral dos Jovens Heróis de Shaolin. Não é uma serie realista sobre jornalismo. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Escolhas

Há uns anos fui ao lançamento de uma revista em Lisboa, onde a personalidade convidada para discursar começou por gabar a iniciativa, louvável num país onde é tão difícil fazer o que quer que seja. Como exemplo desses obstáculos, referiu a injustiça absurda que era não ser possível usar (em Lisboa) fundos europeus de coesão destinados às regiões, adiantando que andava a tentar resolver o assunto em reuniões ministeriais. A revista tinha sido editada numa dessas regiões. A gafe passou desapercebida.

A crise começava a acelerar na altura. Chegava a Lisboa. E já era visível que a toalha da mesa ia sendo sugada do resto do país em direcção à capital, agravando um movimento antigo de escolas, centros de saúde e linhas férreas a fechar.

Lembrei-me mais uma vez disso em relação à Cinemateca. Depois de ter escrito o texto de ontem, dei com um velho artigo de Luís Miguel Cintra a defender Bénard da Costa e a atacar Isabel Pires de Lima. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Cinema e Cinemateca

Esta semana li duas notícias, paralelas entre si como imagens num espelho. A Cinemateca corre o risco de fechar por falta de dinheiro e Luís Filipe Menezes propõe fazer do Cinema Batalha uma “Universidade do CInema”.

É péssimo que a Cinemateca não tenha dinheiro e é óbvio que Menezes anda em delírio pré-eleitoral. Contudo é preciso aqui um enorme “mas” a ligar as duas notícias. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

O Estágio Seguinte da Evolução

Ontem, apareceu no P3 um artigo sobre um estagiário do Bank of America Merryl Lynch que se teria, literalmente, morto a trabalhar. Ninguém sabe muito bem quem era, excepto que trabalhou cerca de 72 horas seguidas e que poderá ter sido isso que o matou. Acrescenta-se que é comum os estagiários daquele banco fazerem mais de 100 horas por semana. E nem é um mau estágio porque recebem mais de 3000 euros por mês. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Pequena Bibliografia Pessoal de Marés Impossíveis

A nadar em estradas inundadas, não consigo deixar de me lembrar de Conan, o Rapaz do Futuro (1978), que vi na televisão portuguesa no começo da década de 1980. O ambiente fica bem resumido no genérico: uma guerra alagou a maioria do planeta, e os sobreviventes levam uma vida simples e ecológica entre as ruínas, ameaçados apenas pelas ambições tecnológicas de poder dos mauzões de Indústria, que lutam para reactivar uma das armas gigantes que destruiatam o planeta. É das coisas mais memoráveis que Hayao Myazaki produziu, menos sofisticado do que a sua obra tardia mas já com muitos dos seus temas visuais recorrentes: a água, a ilha de ar mediterrânico ou os aparelhos voadores. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Só mais uma coisa

Não estava para escrever mais sobre o assunto, mas acho a “chicotada psicológica” contra a Judite de Sousa mal dirigida. Em muitos comentários, critica-se a agressividade. Questiona-se porque não foi assim tão incisiva a entrevistar Isabel dos Santos, por exemplo, o que dá a entender que houve um tratamento desigual, e até falta de respeito.

Porém, o problema não foi nem a agressão nem a educação mas a preparação. Em primeiro lugar, não havia ali assunto para uma entrevista. A entrevista só serviu para dar uma aparência de profundidade, de jornalismo, a uma peça que sozinha se limitava a um artigo da Caras. Depois, a própria peça estava pejada de imprecisões, que o milionário desmentiu imediatamente – sem qualquer capacidade de resposta por parte da jornalista.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Natação, em Pista e em Alcatrão

P1060640

Na semana passada tentei nadar pela primeira vez fora da piscina, na albufeira do Alqueva, entrando na água por uma velha estrada de alcatrão interrompida. Para mim, era uma sensação nova, a primeira vez que tentava nadar mais a sério ao ar livre. Caminhar pelo declive suave da estrada até deixar de ter pé, evitando escorregar no limo que cobria o alcatrão quente.

Pouco antes do Natal, fui obrigado a parar de correr por causa de uma lesão. Corria cerca de dez quilómetros por dia, na passadeira, gastando nisso 55 minutos já contando cinco de aquecimento ao início e de arrefecimento ao fim. Correr tinha-se tornado num hábito muito forte; parar durante semanas, talvez meses, parecia-me impossível. Tentei saltar à corda. Tentei a bicicleta fixa. Pensei em comprar uma bicicleta a sério, mas a dificuldade de a levar semanalmente entre Lisboa e Porto desencorajou-me (ainda não a comprei).

Acabei por tentar a piscina.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Dantes havia tv a cores, agora há tv cor-de rosa.

Apanhei a polémica da entrevista de Judite de Sousa ao jovem milionário Lorenzo enquanto estava quase sem rede no Alqueva. Pelo que percebi muita gente  achou que  a agressividade da jornalista seria melhor empregue a entrevistar banqueiros ou gente como Passos Coelho ou José Eduardo dos Santos.

Só vi a peça hoje. Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Joana Vasconcelos: Onde o Palácio da Ajuda merece o nome que tem.

ng2606859

Não muito surpreendentemente conclui-se no Público que a Exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda foi a mais vista de sempre em Portugal. Não surpreende por duas razões. a) Mais do que arte de regime trata-se de arte do que Pacheco Pereira chamaria “situação” e que monumentaliza com grande eficácia o poder: feita com grandes meios e dinheiros mas brincando constantemente aos pobrezinhos, evocando o “popular”, o “tradicional”, etc. (Outro exemplo do mesmo género é Filipe La Feria, que pelos vistos volta à carga no Rivoli) b) E depois porque foi promovida até à exaustão, não apenas nos jornais mas na tv. Até eu, que nem tenho televisão em casa, sempre que me punha à frente de um aparelho apanhava dois ou três anúncios  declarando que a exposição (que mal tinha aberto na altura) era um dos maiores se não o maior acontecimento da arte portuguesa recente –um exagero que os próprios anúncios e cobertura noticiosa se encarregaram de tornar verdadeiro. Imaginem que se dedicava à arte ou à cultura em geral tantos meios como os que são despejados num só artista. No regime actual é impossível, claro. E esta arte é assim perfeita para a Revista do Expresso, por exemplo, onde para além dos Parques Temáticos da Pobreza, se anunciam biombos de 20.000 euros enquanto no caderno principal se fala de salários de 310 euros.

(Acrescente-se que os números da sua exposição de Versailles (referida também no Público) podem não ser representativos das intenções do público de visitar a exposição. Na altura, na página de facebook da instituição havia queixas deixadas por visitantes que desejavam apenas visitar o palácio e tiveram que gramar com aquilo.)

imagem via.

Filed under: Crítica

Piquenique

20130817-112602.jpg

Último dia da primeira semana na Aldeia da Luz. Ao fim da tarde, volto para Lisboa. Regresso daqui a uma semana. Nos textos anteriores, já dei as minhas impressões mais directas da Aldeia: uma comunidade a meio caminho entre o museu e o bairro social, cuja identidade mais visível reside na perda. Quanto ao resto, foi uma semana muito agradável, a falar com os outros artistas da residência, a ir até à albufeira, entrar a nadar pela estrada submersa adentro, ir de bicicleta às maiores penínsulas do Alqueva, uma delas mesmo no centro do lago e de onde é possível ver grandes e pequenas ilhas cobertas de pinhal, de olival. Não é difícil avistar lebres a correrem aos pares, lagostins, rolas, cegonhas, etc. Fomos à Aldeia da Estrela de carro, que se estende num longo promontório, os muros das casas a darem para a água. É mais antiga e irregular do que a Luz, mas ressentida pelo protagonismo dos vizinhos. Uma região inteira mudada pelo grande lago. Mais uma vez confirmo que o meu livro favorito para ler quando viajo no interior português, recorrente alterado por obras megalómanas é “Piquenique à beira da estrada” dos irmãos Strugatsky, de onde foi filmado o Stalker de Tarkovsky. Cada vez tenho mais a certeza que a Zona é um empreendimento feito com fundos comunitários.

Filed under: Crítica

Religião

20130816-112556.jpg

Estou no monte onde se guarda o acervo da Velha Aldeia da Luz. Fica numa colina à saída da aldeia, rodeado de material eléctrico, isoladores de vidro que brilham sobre a palha seca, velhos automóveis e alfaias amontoados em telheiros de zinco.

Lá dentro, alinhados sobre as estantes metálicas, objectos de madeira velha, retorcida e furada pelo caruncho (ouve-se o mastigar atarraxado do bicho), incrustada de metal antigo, lata, ferro, às vezes de linho e couro. Há arados com alavancas delicadas e pegas de metal recortado. Há cortiços gigantes. Há bancos recortados num pedaço de árvore, o tronco alisado para o assento e três ou quatro ramos a servir de perna.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

A Bathroom of One’s Own

20130816-092658.jpg

Suponho que sou um escritor profissional: sou pago para escrever, não muito, não o suficiente para viver. Eu diria “semi-profissional” mas neste momento meia profissão vale como uma completa, na exacta medida em que se espera que alguém num part-time faça o trabalho de um emprego a tempo inteiro, ou que se espera que alguém das artes plásticas vá construindo a sua carreira nos tempos que sobram dos trabalhos “alimentares”, os que se faz para pagar as contas, que por sua vez são cada vez mais a tempo inteiro, ocupando almoços, noites, fins de semana, tudo.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Qualidade de vida

20130815-093850.jpg

Numa reportagem que deu esta semana na televisão, um dos habitantes resumia a Nova Aldeia da Luz a “um Bairro Social”. E é verdade, tem o principal sintoma disso: uma comunidade transladada para um local novo, planeado e construído de raiz. O processo foi atencioso e delicado. Houve cuidado, negociação, diplomacia. As casas, ruas e arruamentos são bonitos. Não se empilharam as pessoas em caixotes verticais. Mas a identidade destas pessoas mudou. O processo de mudança para o duplicado da sua velha aldeia é agora essa identidade, aquilo que lhes permite pensarem em si mesmos como um colectivo. E é também assim que “os de fora” os identificam. São os sinais dessa deslocação que o visitante procura nas conversas, nos hábitos, nas ruas, nas casas, nos campos. É uma perda que os define, e portanto a obrigação de serem vítimas, de terem os seus problemas, as suas cicatrizes à vista, como se fossem uma fatiota tradicional.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

O Vale da Estranheza

20130813-114731.jpg

Na Aldeia da Luz, sinto-me quase sempre na obrigação de estranhar, de estranhar tudo. De ter a consciência que todas as ruas e casas são instâncias das casas da outra aldeia destruída, inundada. Cada pormenor, as lajes da casa, as cruzes da igreja, o pavimento das ruas, a largura dos passeios, tudo isso nos levanta a dúvida: seriam assim antes? será que são acrescentos? serão tentativas de manter um hábito? um excentricidade? Todas as aldeias são coisas deliberadas, definidas pela história, pela geografia e pelas vidas, mas esta é-o ainda mais. (Cada pormenor incomoda como um parêntesis que não sabemos se fecha ou não, porque a frase que encerra é longa e complexa. Imaginem que se prolonga entre dois volumes e um deles se perdeu.

Leia o resto deste artigo »

Filed under: Crítica

Luz

Hoje vou começar uma residência na Aldeia da Luz, junto ao Alqueva. Levo o mínimo de expectativas e o mínimo de informação sobre uma história tão carregada: uma população desalojada por uma barragem decide-se por uma nova versão da sua aldeia perdida. Já é uma história antiga por comparação com situações que ainda estão a acontecer como o Tua ou a Bemposta, mas alcançou um carácter quase mítico, pelo tempo que demorou, pelas esperanças, pelas desilusões, pelo que ficou. (“Mítico” no sentido de um ciclo narrativo que explica ritualmente processos complexos e contraditórios).

Durante a próxima semana, não sei o grau de acesso à net que irei ter, portanto as actualizações podem tornar-se raras.

Filed under: Crítica

Um toque de classe

Paul Krugman chama a atenção no seu blog para uma ideia interessante: quando e como começou a deixar de ser aceitável ser racista em público nos Estados Unidos? Ele diz que foi um processo muito rápido. E especula que hoje em dia acontece o mesmo em relação à homofobia.

Aqui em Portugal com os “pobrezinhos” da Comporta, as Ulrichadas, as Jonezadas, os António Borgismos, parece estar a acontecer o processo oposto: um conjunto de preconceitos privados, em geral discriminação de classe ou classismo, reinvidica cada vez mais o discurso público e perde a vergonha.

Calculo que tanto no exemplo americano como no Português isso tenha a ver com a mobilidade  ascendente ou descendente de grupos sociais: enquanto nos Estados Unidos a sociedade se vai tornando mais abertamente multi-étnica e tolerante à homossexualidade, aqui em Portugal acontece o oposto com a classe média e os mais pobres, que vão perdendo terreno para as classes endinheiradas.

Filed under: Crítica

Pod People

Mistura de passatempo com humor negro: tento imaginar que monstros representariam esta crise no cinema se houvesse por aqui essa tradição (ou dinheiro).

Uma nova ideia: alguém que descobre que vai acumulando os hábitos, as identidades e os empregos de gente que perde o emprego, adoece, morre ou emigra. Alguém que a cada dia é obrigado a fazer mais coisas e a ser mais coisas, quer queira quer não, e que para além disso tudo precisa ainda de ir salvando quem pode, porque a cada desaparecimento, a sua vida incha com novas responsabilidades cada vez mais pequenas, comprimidas, cruciais.

Até ele ou ela desaparecerem e o fardo passar para outros, ainda mais inchados, mais terminais, até só sobrar meia dúzia de gente múltipla, sobrecarregada à beira do cuto-circuito.

Filed under: Crítica

Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

Comentários

Comentários fora de tópico, violentos, incompreensíveis ou insultuosos serão sumariamente apagados.

Arquivos

Categorias