The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Estilo e Geração

Já há muito tempo que deixei de acreditar na minha própria geração. Daqueles problemas que achávamos fáceis de resolver nas gerações anteriores, não resolvemos nenhum. Nas artes e no design, a minha área, a minha geração faz agora parte de um academismo 2.0 mais electrónico, mais burocrático, e portanto mais autoritário mas mais irresponsável que o clássico (“Também não sei para que serve mas foi a reitoria que mandou fazer”).

Do mundo, acabamos por só mudar as caras acima dos pescoços, a roupa abaixo e os chavões que saem da boca.

Apesar de já estar habituado a esta desilusão, dei conta que ainda tinha ilusões quanto às gerações seguintes. Foi assim: uma amiga minha foi fazer um workshop em Londres no atelier de um designer da geração Manystuff ou Werkplaats e afinal era apenas mais um estágio anti-remunerado (paga-se para trabalhar). Já contei a história noutro post. O que queria dizer aqui é a desilusão de descobrir, mais uma vez, que o estilo só por si não protege da decadência. Nada de novo, já tinha sido assim com o Punk, com o Grafitti, com todos eles.

O estilo não é sucedâneo para a ética: quando funciona, é uma ética, é um guia de conduta e não uma coreografia ou uma lista de compras. Com o tempo, é possível isolar os tiques da totalidade do modo de vida e fazer deles uma coisa que se pode consumir à parte.

Se isso nos faz diferença, a solução é perceber o estilo como uma arena de combate onde diferentes interesses lutam entre si pela posse do terreno. Essa posse nunca é permanente, excepto quando o estilo morre. Ou seja quando deixa de ser imitado, defendido, distorcido, e já nem as suas caricaturas mais toscas têm qualquer interesse.

Tal como o estilo, a ideia de uma geração é um mau substituto para a ética. Não resolve nada mas é difícil deixar de ter esperança.

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Filed under: Crítica

4 Responses

  1. Caro Mário,

    Queria deixar apenas algumas notas em relação a ‘desilusão’ geracional de que falas, em relação ao ‘estágio anti-remunerado.

    Lendo entrelinhas, julgo que o worshop em questão será o ‘Typography Summer School’, liderado por Fraser Muggeridge (certo? vou prosseguir como se tivesse recebido confirmação). Antes de mais: nao tenho qualquer afiliação com o dito, nem conhecimento em primeira mao do mesmo, mas acho que tenho mais ou menos ideia de quais sao os princípios que regem a coisa – ja la volto – e era por ai que gostaria de ir, nao só porque, nao tenho conhecimento directo de como se desenrolou o workshop, mas acima de tudo porque me parece que seria útil discutir o modelo de aprendizagem que o alicerça, em relação ao ensino do design, particularmente em Portugal.

    Esse (o modelo) é (parece-me) o de oficina (workshop), suplementado por apresentações, conversas mais informais, &c – ou seja, uma coisa de raiz mais técnica (nao sei bem qual será a tradução exacta de ‘craft’), em que a tónica está no ‘aprender fazendo’.

    Isto parece-me bastante claro pela descrição no próprio site da ‘escola’:

    Typography Summer School is a meeting place for graduates of graphic design, wanting to bridge the gap between student and professional and learn more about typography. (…) As well as running a range of projects within typography with real clients and budgets, the school acts as a think tank encouraging research and dialogue.

    … e directamente inspirado pelo modelo da Werkplaats (literalmente: workshop/oficina; workplace/local de trabalho) Typografie, de que é parte integral o dito ‘trabalho real’, isto é: cliente, orçamento, produção, &c (tanto quanto sei, a escola é paga pelos trabalhos feitos pelos alunos, sendo o pagamento um subsidio directo as actividades pedagógicas da escola). Ha certamente pessoas mais qualificadas para falar em pormenor sobre a WT (inclusive em Portugal) o meu conhecimento é, mais uma vez, indirecto: através de amigos e das actividades de publicação da escola (recomendo o ‘In Alphabetical Order’ pela genealogia de ideias traçada em relação a tradição pedagógica de ‘workshop’, embora ja tenha alguns anos).

    Do que posso falar mais directamente é em relação a minha própria experiência enquanto designer (ainda?) recem-formado (ja la vao 2 anos) a tentar estabelecer uma prática de design e relacionar isto com a minha experiência enquanto aluno (em Portugal e Inglaterra).

    Agora: a actividade de design (de projecto?) é essencialmente social, e responde (na esmagadora maioria dos casos) a uma solicitação externa e a um conjunto de constrangimentos (tempo, interesses (porventura divergentes) dos vários interlocutores do projecto, orçamento, distribuição, &c) que efectivamente definem o leque de respostas possíveis. Tudo pacifico. Essa dimensão esteve (quase) completamente ausente do meu percurso educacional; o ‘design’ praticado nesse contexto (académico) parece-me hoje, em retrospectiva, uma actividade radicalmente (de raiz) distinta do que faço (tento fazer) agora ‘profissionalmente’, precisamente pela ausência de toda a envolvente social da disciplina.

    Escolas como a WT (e parece-me, iniciativas como a Typography Summer School) sao uma reacção a esse estado de coisas – um ensino divorciado da práctica do design – e uma tentativa de readeraçar esse desiquilibrio (e parece-me que se apresentam assim de forma publica e clara).

    O ensino universitário, no design, como noutras áreas, tem naturalmente objectivos e responsabilidades sociais mais alargadas do que responder as exigências do mercado. E assim é.

    O desfasamento entre a forma como se estuda e pratica design parece-me claro. Mais: parece-me que tem influencia directa no problema dos ‘estágios’ de forma mais geral. Novamente, vou tentar manter-me dentro da área que melhor conheço: design para o sector cultural/artes (que me parece implicado pela ‘Typography Summer School’). A esmagadora maioria dos alunos recém licenciados nao possui as competencias necessárias para poder desempenhar (de forma económica) as tarefas que lhe serão propostas (nos termos de um pequeno atelier especializado em material impresso de natureza ‘cultural’ – a cultura nao paga); nao apenas em termos de conhecimento especializado (em tipografia, por exemplo) mas porque estará efectivamente perante uma actividade diferente da que conhece, que requer processos distintos. Aprenderá fazendo.

    O ensino do design pode e (parece-me) deve reconhecer e adereçar este estado de coisas. A WT é uma proposta. A integração do estágio no currículo educacional é outra. Há muitas outras, com certeza… (A popularidade deste tipo de programas parece-me também relacionada com a consciência por parte dos potenciais alunos do estado das coisas)

    Parece-me pouco eficaz associar estas lacunas a exploração (que é real) de forma generalista. Um atelier como o descrito acima tem certamente processos de trabalho em curso que permitem responder de forma mais eficaz (a nível de tempo e qualidade) do que confiar o trabalho a um estagiário pouco ou nao remunerado – ou a alguém que pague pela experiência. Há casos e casos.

    Mas nao me parece razoável ‘throw the baby out with the bathwater’ no que diz respeito ao modelo de ‘oficina’ (ou ‘aprendizagem’), que me parece merecer uma discussão mais séria, em Portugal e nao só.

    um abraço,
    Pedro

    • Olá Pedro,

      A referência ao werkplaats no texto era apenas uma forma de nomear um estilo formal, não um modelo de estágio. Não queria dar a entender que se trata de uma instituição assente em estágios. O texto fala apenas de uma desilusão semelhante à que senti quando fui descobrindo que a minha própria geração também se dedicava aos estágios.

      A prática actual do estágio não-remunerado tem de facto as suas raízes no aprendizado (aprenticeship) mas já só tem uma relação muito ténue com ele. Na grande maioria dos casos trata-se de obter trabalho barato a troco de muito pouco conhecimento.

      Recuperar a ideia de aprendizado só será possível combatendo o estágio não-remunerado. Dentro da tipografia em Portugal, tentou-se fazer do aprendizado algo ensinado em escolas e não em ateliers. A escola é ou deveria ser efectivamente um substituo do aprendizado, tornando-o numa prática regulada.

      Neste momento, acredito que essa função das escolas deveria ser recuperada.

    • Márcia diz:

      Olá Pedro,

      Fui eu quem desistiu da TSS. Concordo plenamente quando falas sobre o aprender fazendo e a possibilidade da integração desse modelo no ensino de design.

      No entanto, tenho de discordar da integração do modelo específico da TSS. Naquele excerto que citaste do site do curso, não é claro como funciona o curso. Falam da relação entre o jovem designer e o trabalho real, mas não explica como realmente funciona: uma turma de 26 pessoas foi dividida em três grupos, e cada um tinha um projecto. Os projectos eram de clientes do Fraser, uma editora e um artista, e uma empresa de energia. Pediram-nos para trabalhar individualmente, sendo que no final da semana os clientes viriam ter connosco e escolheriam o que achassem melhor. Isto seria intercalado com pequenas apresentações de portfolios por parte de estúdios e um dia de workshop com o Ken Garland, creio.
      Perguntei se a pessoa que fosse escolhida seria remunerada, porque afinal de contas teria feito um bom trabalho, e responderam-me que à partida não.

      Desisti porque se soubesse que seria assim, não teria ido. Nem me teria candidatado sequer. Na verdade, estaria a pagar duas vezes, com o meu dinheiro e com o meu trabalho, para ter a possibilidade de fazer um trabalho real; até posso dizer que o local onde trabalho também estava a pagar, ao permitir-me ir fazer o curso e pagar-me a semana em que estive fora. Se os projectos que nos foram apresentados não tivessem fins comerciais, a história era outra; estaria a dar o meu trabalho por uma causa que eventualmente ajudaria outros. Como o meu trabalho tem valor, tanto quanto os das outras 25 pessoas que lá estavam tem, este modelo não me parece de todo ético, e é profundamente injusto. Cria a ilusão de que apenas pagando se consegue ter acesso a um projecto real, porque ainda não são ‘bons’ o suficiente para o conseguirem sozinhos.
      Em relação à ‘celebração’ da tipografia na TSS, a abordagem pareceu-me básica, com uma introdução que podia ter saído do The Elements of Graphic Design ou de uma aula de 1º ano de tipografia da faculdade. Esta foi a outra razão de ter desistido, porque me pareceu que o propósito não era aprender sobre tipografia, mas sim fazer um projecto no qual a tipografia não era o elemento central da discussão – havia embalagem, logotipos e uma capa de vinil.

      Creio que há modelos de oficina mais éticos. No Porto sei que há um estúdio que está implantar um estúdio-escola (não sei se é público por isso não vou dizer quem são). A proposta passa por convites a jovens designers, estudantes ou não, para participarem em projectos específicos. O orçamento que recebem é dividido entre o estúdio e os colaboradores, os jovens designers e eventuais pessoas que venham ajudar ao projecto com talks ou consultadoria junto destes. A mim, parece-me um win/win. Só não é tão lucrativo para o seu atelier quanto a TSS…

      E ainda em relação à WT e à TSS, a diferença entre modelos está descrita no teu comentário: o pagamento de propinas e o trabalho real produzido pelos seus estudantes financiam a WT, permitindo o seu funcionamento normal, pagar salários e contas, publicações e eventos.
      No caso da TSS, apesar de uma dimensão obviamente muito mais reduzida, parece-me que o que paguei é demasiado para aquilo que me ofereciam.

  2. Olá Marcia,

    Obrigado pelo comentário, é bom ter uma ideia mais concreta do que foi a tua experiencia.

    Espero que tenha ficado claro que nao estava a tentar defender a TSS em particular, mas sim preocupado com a possibilidade de dai se poderem extrair generalizacoes negativas em relaçao a um certo tipo de modelo (no qual a TSS – ou pelo menos a sua apresentacao publica – encaixa) sem uma discussao mais alargada do mesmo.

    P

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