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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os mais fracos

Dizendo de um modo conciso aquilo que tenho distribuído por textos, posts e aulas: é praticamente impossível não ter uma posição política sobre os estágios.

Dentro do design, o estágio é desde há décadas identitário. Faz parte do percurso esperado, da carreira. O estagiário é, até certo ponto, o descendente do aprendiz. Mas os tempos do aprendizado já lá vão: a ideia de demorar uma década a aprender uma tarefa, de entrar numa oficina ainda criança para sair de lá um profissional, já passou há muito. E enquanto durou teve os seus problemas: no aprendizado era suposto aprender-se mas havia demasiadas oficinas sem escrúpulos que o usavam para obter rapidamente mão de obra barata. Daí começar-se a ensinar a tipografia em escolas reguladas pelo Estado.

Hoje, o estágio reina em praticamente todas as profissões. Mais do que obrigatório tornou-se inevitável. Já só tem uma relação muito ténue com aprender o que quer que seja. Já nem sequer é uma entrevista de emprego prolongada. Tornou-se comum ser o processo de selecção não para um emprego mas para um estágio profissional subsidiado pelo Estado.

Só as empresas mais cinicamente descaradas não apresentam o estágio como um favor que estão a fazer ao estagiário, que é uma experiência essencial, que não se ensina na escola, etc. É um chavão. E só interessa na medida em que o é. Só conta metade da história e conta-a a partir de uma posição de relativo poder.

Por pior que esteja a situação para as firmas ou empresas, ela está bem pior para quem é obrigado a fazer um estágio, que implica quase sempre estar a pagar para fazer um trabalho que trará dividendos a quem emprega mas não a quem trabalha.

Nem toda a gente tem meios para subsidiar o próprio posto de trabalho durante meses ou anos, o que faz do estágio um mecanismo poderoso de desigualdade que deixa pelo caminho quem não tenha dinheiro ou família que o suporte.

Com isto tudo quero dizer que já não é possível a uma instituição, firma ou indivíduo promover estágios deixando a ética para depois. O estágio entrou naquela zona onde os argumentos de autoridade ou de tradição deixaram de funcionar, onde as próprias instituições e identidades entram em curto circuito. Por exemplo, só é possível ver o estágio como essencial se as escolas não estiverem a fazer o seu trabalho, mas a identidade do design depende do seu ensino em escolas, logo quanto mais um estágio é necessário mais fica erodida a identidade da escola como fonte de legitimidade. É um ciclo vicioso.

A solução? Não assumir nada e pensar antes de tudo nos mais fracos entre os mais fracos. Não será fácil porque coisas como o estágio fazem parte da identidade tradicional do design. Será preciso mudar hábitos e desconfiar da sabedoria aceite, claro, pensar um bocadinho nas implicações do que se faz antes, durante ou depois de o fazer. É isso que significa ter uma posição política: assumir que um assunto é um problema mesmo que não para nós.

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Filed under: Crítica

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