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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Aprendizes de design, estagiários de feiticeiro

sorcerer

Desconfio que se fizesse o doutoramento nos dias de hoje o tema seria o estágio em design. Faz uns sete anos que comecei a escrever sobre o assunto. Já penso nele desde o meu primeiro estágio, faz neste Verão vinte anos. Não me passou pela cabeça escolhê-lo por uma razão muito pragmática, a isenção dos avaliadores e do próprio sistema: embora o estágio já seja desde há muito praticado em larga escala e com os mesmos problemas que hoje são bastante óbvios, muitos dos professores que dão aulas de design no ensino superior são designers, têm firmas e aceitam estagiários.

Não é necessariamente mau que o façam. O ensino do design em Portugal começou fora das instituições oficiais, em escolas e estágios mais ou menos informais realizados em ateliers –no de Daciano da Costa, por exemplo. Eram maneiras de ir pensando e testando algo para o qual as instituições oficiais ainda nem tinham um nome, o design.

Antes disso, havia ainda a tradição do aprendizado que acompanhava a tipografia desde o começo. Tem-se comparado muito o actual estagiário com o aprendiz, alguém que aprende no local de trabalho, dirigido e ensinado por um mestre, mas é uma analogia superficial.

Em primeiro lugar, o aprendizado era muito mais contratualizado que o actual estágio. O mestre tinha obrigações legais para com o aprendiz. Era obrigado a dar-lhe alimentação, alojamento e vestuário, coisa que nos estágios actuais não acontece, nem em género nem em espécie. Quando muito é o Estado que assegura essa protecção pagando um salário ao Estagiário em vez da empresa onde trabalha.

Em segundo lugar, estas obrigações asseguravam também que o aprendiz não era trabalho grátis caído do céu. Ou seja, asseguravam que a oficina não estava a fazer concorrência desleal a outras que decidissem não aceitar aprendizes. Em todo o caso, era bastante comum os aprendizes serem completamente largados à sua sorte, sem nenhuma supervisão, acabando muitos por fugirem antes de completarem o aprendizado.

Em terceiro lugar, o aprendizado durava um número estipulado de anos, cinco, sete anos. Terminado esse período, o aprendiz era considerado apto a exercer a profissão. No caso do estágio actual, os períodos são curtíssimos. Assume-se que o estágio é apenas um mecanismo de transição para o mercado e não um mecanismo de ensino em si mesmo. Por mais que assuma o discurso do ensino, só raramente é estruturado ou à a preocupação de transmitir conhecimento para além da experiência de estar a fazer aquilo a “sério”, o quer dizer à “solta e sem supervisão”.

Por contraste com o estágio, ainda existe aprendizado em prática em países como os Estados Unidos, onde é usado para ensinar e aprender profissões como electricista ou mecânico. Este aprendizado dura anos, é bastante bem remunerado e é regulado por associações e legislação própria.

É um modelo de ensino que exige uma delicada repartição de responsabilidades entre mestres e aprendizes, que não sobrevive a economias de escala – costuma haver um limite baixo para o número de aprendizes aceites.

Não sei se o design gráfico generalista que é ensinado hoje em dia pode beneficiar directamente do modelo de aprendizado, mas imagino que especializações como a fotografia, o tratamento de imagem, a programação, o desenho, possam beneficiar deste modelo.

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Filed under: Crítica

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