The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ajudar

Desabafo: hoje não me estou a sentir caridoso. Como sei isso? Apanhei através do Twitter mais uma daquelas iniciativas onde um bando de designers desenham uns cartazes tipograficamente correctos para sem abrigos. Título do artigo: “Artists help the homeless with elegant typography” – é um lugar comum, bem intencionado, etc., mas já não tenho pachorra. Aliás, só escrevo sobre o assunto porque este consiste em alguém (um designer) achar que pode dar conselhos sobre como pedir dinheiro a estranhos na rua a alguém (um sem abrigo) cuja sobrevivência depende disso.

Quando muito demonstra interesse (o que não é pouco, eu sei), demonstra carinho (idem), demonstra aquele espírito – de – dar – a – cana – de – pesca – e – não – o – peixe.

Já não tanto idem.

É bem intencionado mas seria preferível dar dinheiro. Aliás, podia combinar-se as duas coisas, fazia-se o cartaz e pagava-se ao sem-abrigo pela sua disponibilidade para servir de mote à nossa vontade de fazer bom lettering e talvez inventar um bom slogan.

Não tendo dinheiro para dar, penso que seria mais útil desenhar qualquer coisa, tentando de seguida vendê-la a alguém e dar o dinheiro ao sem abrigo. Em caso de insucesso, pelo menos ficava-se com a certeza que o nosso desenho não ajudaria o sem abrigo. Ou, mais provavelmente, só  o ajudaria com ele ao lado. E quem estaria a fazer a maior parte do trabalho seria o sem abrigo.

Mas porque é preferível dar dinheiro?

Porque demonstra fé. O dinheiro não é quente como uma sopinha, mas ao contrário de uma sopinha, de roupa em segunda mão, de uma lata de atum, demonstra que confiamos o suficiente naquela pessoa para não tomar as decisões por ela.

Cansa-me aquele raciocínio do “prefiro dar um pão do que dinheiro não se sabe onde o vão gastar” porque a intenção não é ajudar mas fazer do pão um testezinho moral chico-esperto. Se não quer o pão é porque é mentiroso drogado bêbado.

Já era verdade antes da crise, mas agora devia ser óbvio que há muita gente, talvez a maioria, que não pede para sustentar qualquer tipo de vício. Não é  débil mental nem moral. Que é perfeitamente capaz de tomar as suas próprias decisões.

Idealmente, adorava que o dinheiro dos meus impostos contribuísse para ajudar essas e outras pessoas, mas é cada vez mais óbvio que serve para directa e indirectamente aumentar o número de gente a precisar de ajuda, financiando as políticas de desemprego e precariedade deste governo. Na impossibilidade disso, prefiro assumir que um sem abrigo não é um falhado mas alguém capaz e responsável. E dar-lhe dinheiro implica que ele o pode gastar no que quiser.

Quanto aos designers e os cartazes, seria melhor fazerem voluntariado. O tal cartaz, feito para uma ONG, por exemplo, poderia ajudar milhares de pessoas. A Toyota resolveu ajudar os sem abrigo de Nova Iorque não dando dinheiro mas melhorando a eficiência da ajuda existente, diminuindo o tempo de espera numa fila de comida de 90 para 18 minutos em alguns casos. Ajudar caso a caso é bom. Ajudar o máximo possível de pessoas é melhor.

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Filed under: Crítica

12 Responses

  1. O bando de designers são na verdade Sign Painters. Cuja profissão consiste em fazer lettering e sinalética pintada à mão. Uma tradição já antiga no EUA e que por cá também se vê alguns exemplos. Apenas tiveram a ideia de embelezar os cartazes dos sem abrigos e fazer uma entrevista a cada um deles que está disponível no website do projeto http://homelesssigns.tumblr.com/.

    • A distinção não é particularmente importante neste contexto. Quando muito poder-se-ia distinguir entre o sem abrigo que se apresenta como um produto (designer) e o sem abrigo que se apresenta como um produto tradicional (pintor de tabuletas). O argumento de base não muda.

      • A minha intenção não foi tentar arranjar argumentos para alterar o argumento base. Apenas quis chamar a atenção para o termo profissional (designer) utilizado no texto. Se não é designer não deve ser chamado designer. Da mesma maneira que a não se tratam de “cartazes tipograficamente correctos”, porque isto não é Tipografia. É Sign Painting, Só isso.

      • Só faz sentido usar e discutir terminologia específica se isso for útil. O próprio artigo usa “typography” onde um especialista usaria “lettering”. Em termos literários é perfeitamente possível usar os dois termos como sinónimos. É tão correcto como chamar “cd” ou “álbum” a um conjunto de ficheiros digitais (que em muitos casos já não sequer mp3, portanto se calhar nem vale a pena chamar-lhes isso).

        Neste caso não faz diferença nenhuma, excepto talvez para demonstrar que há discussões muito importantes dentro do design.

  2. São João diz:

    Infelizmente há cada vez mais casos de instrumentalização da pobreza, com projectos em que marcas patrocinam carrinhos, tendas ou similares a troco de publicidade, ou em que estes meios são fornecidos em troca da prestação de serviços pelos sem abrigo, como a recolha de lixo ou selecção de lixo para reciclagem por exemplo, retirando lugar a trabalhadores remunerados.
    Este é só um exemplo:
    http://p3.publico.pt/cultura/arquitectura/5423/arquitectas-criam-casas-portateis-em-cortica-para-os-sem-abrigo-de-lisboa

  3. patubrabu diz:

    “Apenas tiveram a ideia de embelezar os cartazes […]”
    ora aqui está a definição melhor entendida pelo mundo sobre o que é um designer!
    nada disto parce ser diferente do “filho da pub” que na sic radical cria um programa cheio de superficialidades onde o suposto “especialista” chama azeite ao vinagre e batatas às couves…
    quando aqui haveria uma excelente oportunidade de explicar em que é que o design pode “melhorar o mundo”, é na realidade uma montra de vaidades e estilos ao jeito do melhor entretenimento do tipo “deixa-me mais burro do que sou”.
    enfim… quando se tratar de “embelezar mundo” é realmente muito fácil colocar palácios à frente das pessoas…

    • Já referi que este projecto não é design nem eles são designers… pesquise o projecto. Sim na verdade o que eles fizeram foi embelezar, dar mais cor, mais destaque à mensagem que os sem abrigos queriam passar…
      Talvez a comparação ao filho da pub vem do facto de nem sequer saber do que se trata o Sign Painting.

      • (já que aprecia o rigor, “Pintor de tabuletas” ou “de sinais” é a expressão usada aqui em Portugal. Ainda se fazia nos anos 90 e eu próprio o fiz como emprego de Verão. Sign Painting é demasiado mainstream.)

      • Olhe, eu dou aulas de tipografia, que incluem lettering, já discuti aqui a definição de lettering, Está registado algures nos comentários. Simplesmente, acredito que há ocasiões para todo: ter a discussão importantíssima sobre lettering ou sign painting ou se isso é ou não design, é a mesma coisa que andar a discutir se um logo feito para um sem abrigo é um logotipo ou uma logomarca. Demonstra bem as prioridades de muito designer. Os sign-painters não são designers? Sorte deles.

    • Pois os nomes deste tipo de profissões e os termos em Português é um tema que levanta muitas questões. Também já ouvi a expressão “pintor de publicidade” da boca de um profissional já reformado.
      Sign painting é o nome original no EUA, já no Reino Unido é Sign Writing.
      E hoje em dia ainda se faz. Eu pelo menos faço.

  4. Ao que parece eles trocam o letreiro dos sem abrigo por um pintado à mão e em troca também lhes dão uma doação.

    http://www.metro.us/boston/news/local/2012/02/08/the-art-of-raising-awareness-about-homelessness-in-boston/

    http://twentytwowords.com/2013/08/06/artists-buy-signs-from-homeless-replace-them-with-new-hand-painted-versions-16-pics/

    http://www.bostonmagazine.com/arts-entertainment/blog/2013/08/07/signs-for-the-homeless-tumblr-kenji-nakayama/

    “É bem intencionado mas seria preferível dar dinheiro. Aliás, podia combinar-se as duas coisas, fazia-se o cartaz e pagava-se ao sem-abrigo pela sua disponibilidade para servir de mote à nossa vontade de fazer bom lettering e talvez inventar um bom slogan.”

    Parece que afinal é isto que eles fazem.

  5. Marco diz:

    Seria no mínimo irónico que entre os sem-abrigo houvesse um designer desempregado. Parabéns Mário, mais uma vez, pelo texto brilhante. Abraço.

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