The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Vale da Estranheza

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Na Aldeia da Luz, sinto-me quase sempre na obrigação de estranhar, de estranhar tudo. De ter a consciência que todas as ruas e casas são instâncias das casas da outra aldeia destruída, inundada. Cada pormenor, as lajes da casa, as cruzes da igreja, o pavimento das ruas, a largura dos passeios, tudo isso nos levanta a dúvida: seriam assim antes? será que são acrescentos? serão tentativas de manter um hábito? um excentricidade? Todas as aldeias são coisas deliberadas, definidas pela história, pela geografia e pelas vidas, mas esta é-o ainda mais. (Cada pormenor incomoda como um parêntesis que não sabemos se fecha ou não, porque a frase que encerra é longa e complexa. Imaginem que se prolonga entre dois volumes e um deles se perdeu.

Olhamos para tudo como se apreciássemos a qualidade de um autómato realista ou de uma simulação de computador* — sentimos a obrigação de estranhar mesmo que tudo nos pareça realista, simplesmente por saber que vivemos numa versão. É claro que todos os povoados são versões: em Lisboa há sete colinas como as de Roma; no Porto há um Monte Aventino (uma dessas colinas). Se podemos identificar uma aldeia como sendo “alentejana” é porque todas elas se se parecem umas com as outras.

Mas, na Luz, esta sensação não é a de pertencer a um modelo, a uma tendência; é como uma dor fantasma. Se uma construção nos parece incongruente, é possível que uma fotografia antiga ou uma ida ao museu nos esclareça que é o duplicado de uma fonte ou de uma praça desaparecida. (Nessas fotos, a velha aldeia parece mais sólida do que esta, com texturas mais realistas. Por comparação, esta parece gerada num computador. Reparamos também que as ruas antigas eram côncavas, preenchiam um vale. Estas são planas e ocupam um cume.)

O Museu da Luz (uma estrutura enterrada como um bunker junto ao cemitério e à igreja) está cheio de maquetes toscas, feitas de laminas recortadas de cartão ou de madeira grossa, com falhas entre as tábuas. A própria aldeia é como uma outra maquete ampliada até ao limite do habitável. À entrada de certas terras históricas, a placa de boas vindas identifica o monumento mais interessante, o “ex libris”; aqui apresenta-nos uma planta da aldeia. Esse padrão de ruas copiado e simplificado, de ângulos mais puros e passeios mais largos, é literalmente o que interessa aqui e o que suporta esta sensação de estranheza.

*façam um google da expressão “Uncanny Valley”.

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Filed under: Crítica

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