The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Qualidade de vida

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Numa reportagem que deu esta semana na televisão, um dos habitantes resumia a Nova Aldeia da Luz a “um Bairro Social”. E é verdade, tem o principal sintoma disso: uma comunidade transladada para um local novo, planeado e construído de raiz. O processo foi atencioso e delicado. Houve cuidado, negociação, diplomacia. As casas, ruas e arruamentos são bonitos. Não se empilharam as pessoas em caixotes verticais. Mas a identidade destas pessoas mudou. O processo de mudança para o duplicado da sua velha aldeia é agora essa identidade, aquilo que lhes permite pensarem em si mesmos como um colectivo. E é também assim que “os de fora” os identificam. São os sinais dessa deslocação que o visitante procura nas conversas, nos hábitos, nas ruas, nas casas, nos campos. É uma perda que os define, e portanto a obrigação de serem vítimas, de terem os seus problemas, as suas cicatrizes à vista, como se fossem uma fatiota tradicional.

Imagino que muitos tentem à noite lembrar-se dos compartimentos das suas casas desaparecidas, de algum pormenor da paisagem que não voltarão a ver, de um sítio que lhes seja importante por associação a uma memória. Não é difícil imaginá-lo: todos nós o fazemos. Também temos os nossos pequenos e grandes exílios – o mais pequeno e irremediável a simples passagem do tempo, que torna o nosso passado num território alagado, irrecuperável. Toda a memória é a dor fantasma de uma amputação constante, inexorável — nostalgia é a palavra grega para a dor de uma ferida antiga.

Todo o Bairro Social é uma prótese que procura manter uma comunidade, a sua “qualidade de vida” — uma expressão que tanto se usa no urbanismo como nos hospitais, aqui um eufemismo para designar tudo o que possa mitigar o sofrimento de uma doença crónica.

Há próteses bem feitas e mal feitas. Ganchos que se enroscam a cotos toscos, olhos de vidro antigos onde as pinceladas da íris lembram um pouco um berlinde. Esta aldeia lembra-me uma dentadura delicada, escavada de uma só pedra cara e branca usando as últimas tecnologias e instalada nos melhores hospitais.

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Filed under: Crítica

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