The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Bathroom of One’s Own

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Suponho que sou um escritor profissional: sou pago para escrever, não muito, não o suficiente para viver. Eu diria “semi-profissional” mas neste momento meia profissão vale como uma completa, na exacta medida em que se espera que alguém num part-time faça o trabalho de um emprego a tempo inteiro, ou que se espera que alguém das artes plásticas vá construindo a sua carreira nos tempos que sobram dos trabalhos “alimentares”, os que se faz para pagar as contas, que por sua vez são cada vez mais a tempo inteiro, ocupando almoços, noites, fins de semana, tudo.

Para escrever é preciso uma disciplina, que vista do lado de fora não se distingue de estar a fazer refresh no facebook ou de ler as notícias ou de fazer like na foto de um gatinho. É provável que sempre tenha sido assim, quando só se escrevia com papel e algo que o riscasse ou imprimisse. Ninguém do lado de fora sabia o que o escritor estava a fazer.

Talvez por isso muitos escritores tenham desenvolvido hábitos excêntricos, uma hora e um sítio sagrados do dia, uma secretária alta, uma certa sala ou hora, uma má disposição ou uma conduta que assuste quem ache que ele ou ela precisam de companhia, ou que aquele corpo sentado ao teclado seria melhor empregue na lida da casa.

Eu gosto de escrever de manhã, um hábito que encorajei quando fazia o doutoramento. Adormecia com o portátil debaixo da cama e, mal acordava, abria-o e antes de tudo o resto (antes de sair da cama, antes até do café) começava a escrever. Se corria bem, podia ficar o resto do dia descansado. Se corria mal podia-me dedicar a tarefas menores, transcrições, traduções, notas de rodapé. Durante os anos do doutoramento cheguei a fazer isto diariamente, sem falhar, durante oito meses, nas férias, fins de semana, casamentos, etc. Esses oito meses mal medidos começavam por volta de Março e terminavam por altura do Natal, quando o ritual já se tinha diluído numa ou duas linhas por dia, só para dizer a mim mesmo que o tinha cumprido. Em Março, o sentimento de culpa ajudado pelos dias maiores sustentava um novo ciclo.

Dizer que se está a fazer o doutoramento garante alguma privacidade, algum espaço. Agora já não tenho essa vantagem. Mas tenho os meus truques. O último reduto é trancar-me na casa de banho. A Virginia Woolf dizia que uma mulher só poderia escrever se tivesse um quarto que pudesse chamar seu – A Room of One’s Own. Penso que o argumento é válido para todos os escritores, homens e mulheres (embora reconheça que é mais difícil para a maior parte delas). No meu caso, o quarto é de banho.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. OutofWorld diz:

    Reblogged this on OutofWorld – Mundo à Parte and commented:
    Num Workshop de Escrita que fiz há uns tempos, um dos participantes revelou que estava ali para que o ajudassem a conseguir escrever com qualquer estado de espírito pois, actualmente, só o conseguia fazer quando estava triste ou zangado com a namorada.

  2. rawckee roach diz:

    então bom dia, suponho eu.

  3. Fantástico! Identifico-me bastante, tenho pensado nestas mesmas coisas, ultimamente. Seguidor!

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