The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Religião

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Estou no monte onde se guarda o acervo da Velha Aldeia da Luz. Fica numa colina à saída da aldeia, rodeado de material eléctrico, isoladores de vidro que brilham sobre a palha seca, velhos automóveis e alfaias amontoados em telheiros de zinco.

Lá dentro, alinhados sobre as estantes metálicas, objectos de madeira velha, retorcida e furada pelo caruncho (ouve-se o mastigar atarraxado do bicho), incrustada de metal antigo, lata, ferro, às vezes de linho e couro. Há arados com alavancas delicadas e pegas de metal recortado. Há cortiços gigantes. Há bancos recortados num pedaço de árvore, o tronco alisado para o assento e três ou quatro ramos a servir de perna.

Chamam-lhes Mochos. Também há uma Burra (muitos destes objectos têm nomes de animais (são zoonómicos?)), uma estrutura esguia com quatro pernas de abrir articuladas ao topo por uma cruz, a suportar em ganchos coadores sucessivos de tecido branco, uma parte do processo de fazer queijo.

Lembra arte moderna. Seria um ready-made mais bonito que os de Duchamp (vê-lo é como encontrar no campo uma velhinha bonita que, percebemos pela pose ainda vaidosa, pelas fotos cinzentas, poderia ter sido alguém no cinema ou nas artes).

Nas prateleiras também há coisas novas de plástico (uma máquina de tricotar, daquelas que se viam nos anos 70) e daqueles materiais que ainda não eram bem isso (uma grafonola). Parecem fora do sítio apenas porque não são tão obviamente rústicos como o resto. Fascinam por isso, pela decisão de estarem ali.

Sente-se aqui um culto dos mortos, dos antepassados, que ainda existe desapercebido em todos os museus, grandes e pequenos, até nos de arte, onde a religião só sobrevive de forma descafeinada. A casa-museu é o descendente directo do mausoléu, do morro fúnebre, onde o chefe era enterrado com as suas posses mais preciosas no seu melhor fato. A ciência e a burocracia exigem um ritual diferente, rigoroso e solene, escrito na linguagem dos mestrados e dos orçamentos. Não que a religião antiga fosse mais sincera ou autêntica do que a nossa — a maior diferença residia talvez em chamar-lhe “religião”.

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Filed under: Crítica

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