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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Natação, em Pista e em Alcatrão

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Na semana passada tentei nadar pela primeira vez fora da piscina, na albufeira do Alqueva, entrando na água por uma velha estrada de alcatrão interrompida. Para mim, era uma sensação nova, a primeira vez que tentava nadar mais a sério ao ar livre. Caminhar pelo declive suave da estrada até deixar de ter pé, evitando escorregar no limo que cobria o alcatrão quente.

Pouco antes do Natal, fui obrigado a parar de correr por causa de uma lesão. Corria cerca de dez quilómetros por dia, na passadeira, gastando nisso 55 minutos já contando cinco de aquecimento ao início e de arrefecimento ao fim. Correr tinha-se tornado num hábito muito forte; parar durante semanas, talvez meses, parecia-me impossível. Tentei saltar à corda. Tentei a bicicleta fixa. Pensei em comprar uma bicicleta a sério, mas a dificuldade de a levar semanalmente entre Lisboa e Porto desencorajou-me (ainda não a comprei).

Acabei por tentar a piscina.

Nunca fui grande nadador, em parte por falta de interesse. Mantinha-me à tona, lentamente. Mas decidi investir naquilo, com a ajuda constante do Youtube e pontual dos senhores que guardam a piscina.

Comecei a gostar na exacta medida em que aquilo me era totalmente desconhecido. Obrigava-me a mexer, a respirar, até a ver, de modos completamente novos para mim. Demorei três meses, três a quatro horas por semana, a conseguir um crawl decente. Descobri que afinal não sabia nadar bruços. Tive a intuição, confirmada pela pesquisa histórica, que bruços e mariposa eram semelhantes, com a diferença maior que os braços voltavam à posição inicial abaixo e acima de água, respectivamente – ainda não consigo nadar mariposa.

Aprendi a reconhecer as diferenças entre os vários estilos de crawl. Gosto em particular do usado no triatlo, que usa muito menos as pernas, o equivalente em água a andar. Aprendi a variar a batida das pernas entre uma por braçada (distância) e três (velocidade).

Ainda não sou um bom nadador, acho que nunca serei, voltei à corrida mas já não consigo passar sem a piscina.

Um amigo meu, designer e nadador, chamou-me a atenção para a quantidade de designers que nadavam, enumerando uma curta lista. “Porque seria?”, acrescentou. Outro amigo meu, também designer e também nadador, já me tinha dado uma resposta possível enquanto boiava na pista ao lado: “A natação é mesmo um desporto para burros. É preciso sinais para tudo. Segue-se uma risca no fundo, vira-se quando se chega ao traço ou às bandeirinhas” É um desportoainda mais gráfico que o costume, dentro do mundo colorido e tracejado dos desportos. Talvez seja isso que atrai os designers. A mim quase me chegam os padrões no fundo, quando o sol entra pela clarabóia, e podemos ajustar a braçada pela nossa sombra.

Nadar na barragem era diferente. Percebi que sem as riscas no fundo a orientação era difícil, sobretudo no crawl. Ganhei o hábito de usar a estrada como pista, alternando entre o bruços para me afastar da margem e o crawl para voltar (era mais fácil ver quando o fundo se tornava mais raso).

Ouvia-se bem o som das vacas e das conversas dos poucos turistas transmitidas pelas águas e não era raro ser sobrevoado por cegonhas e garças enquanto nadava de costas, acompanhado por um enxame de libélulas cujas manchas na ponta das asas transparentes davam a sensação de três insectos voando em formação apertada, sem dúvida para confundir vítimas ou desencorajar predadores. Um dia até fotografei um lagostim que se aquecia talvez sobre o alcatrão e acabou por se afastar rapidamente de costas fechando e abrindo a cauda como um chicote.

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Filed under: Crítica

5 Responses

  1. Pedro diz:

    Caro Mário,
    Pensava que era de conhecimento público que água do Alqueva é de péssima qualidade, vem carregada com os esgotos urbanos espanhóis

    • Embora tenha verificado que a água da albufeira não é para consumo público (na Luz bebe-se água engarrafada), não encontrei nada que desaconselhasse a natação. São feitas lá regularmente provas de natação em água aberta de longa distância.

  2. Pedro diz:

    Caro Mário, desculpe a insistência, vivi vários anos no alentejo acompanhei estas questões de perto, a Edia (empresa que gere a Albufeira) criou um muro de silencio sobre a questão, infelizmente no Alentejo não se encara este problema mas ele existe, aconselho este artigo do publico: chttp://www.cna.pt/arquivonoticias/noticiasagricultura/2009/09-12-19_alqueva_publico.pdf

  3. Paciência. Dedicar-me-ei à bicicleta.

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