The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pequena Bibliografia Pessoal de Marés Impossíveis

A nadar em estradas inundadas, não consigo deixar de me lembrar de Conan, o Rapaz do Futuro (1978), que vi na televisão portuguesa no começo da década de 1980. O ambiente fica bem resumido no genérico: uma guerra alagou a maioria do planeta, e os sobreviventes levam uma vida simples e ecológica entre as ruínas, ameaçados apenas pelas ambições tecnológicas de poder dos mauzões de Indústria, que lutam para reactivar uma das armas gigantes que destruiatam o planeta. É das coisas mais memoráveis que Hayao Myazaki produziu, menos sofisticado do que a sua obra tardia mas já com muitos dos seus temas visuais recorrentes: a água, a ilha de ar mediterrânico ou os aparelhos voadores.

Só há pouco tempo soube que a história foi adaptada com bastantes alterações de uma história de Alexander Key, The Incredible Tide (1970). Só por uma leitura do resumo percebe-se que os detalhes mais interessantes de Conan foram acrescentados durante a adaptação para série, que a tornou num épico solar e optimista passado num mundo pós-apocalíptico. Não é um paradoxo: apesar de todos os perigos, quase afogamentos, maremotos, armas de destruição maciça, desencontros, mortes, os heróis lidam sempre com tudo isso com pantomina física, humor e coragem, mesmo nas piores situações. A cena onde Conan chora a morte do Avô partindo rochedos cada vez maiores é o melhor exemplo, estabelecendo o modo físico como o personagem enfrenta os problemas, mesmo que apenas emocionais.

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Estas fantasias alagadas eram comuns no começo da década de setenta. Veja-se Kamandi, o Último Rapaz da Terra (1972), mais outro adolescente à solta entre as ruínas alagadas de arranha-céus. A Estátua da Liberdade a flutuar assinala a inspiração da série, o Planeta dos Macacos (1968) que terminava com Charlton Easton aos berros diante da estátua encalhada numa praia.

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No mesmo ano de 68, começava a ser publicada na revista Pilote outra história, A Cidade das Águas Movediças, primeiro volume da s aventuras de Valérian e Laureline, começando com a Estátua da Liberdade destruída pela maré e desenrolando-se entre os prédios inundados e invadidos por plantas tropicais de Nova Iorque.

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Nada disto era novo. Na altura já havia uma longa linhagem de ficção inundada: The Drowned World, de J.G. Ballard (1962), por exemplo.

No Alqueva, é difícil não nos lembrarmos disto: a Aldeia da Estrela não anda longe das ilhas mediterrânicas de Conan. Não se trata de um apocalipse global, claro, apenas de  local e deliberado, efeito secundário do progresso. Não deixa por isso de alterar dramaticamente a paisagem e toda a sociedade à sua volta, ficção científica quotidiana, casual, turística.

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Filed under: Crítica

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