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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cinema e Cinemateca

Esta semana li duas notícias, paralelas entre si como imagens num espelho. A Cinemateca corre o risco de fechar por falta de dinheiro e Luís Filipe Menezes propõe fazer do Cinema Batalha uma “Universidade do CInema”.

É péssimo que a Cinemateca não tenha dinheiro e é óbvio que Menezes anda em delírio pré-eleitoral. Contudo é preciso aqui um enorme “mas” a ligar as duas notícias.

Desde há três anos e meio vivo em Lisboa aos fins de fins de semana e trabalho no Porto à semana. Antes disso, ia à capital de ano a ano, se tanto. As viagens são caras e, sem uma boa razão para isso, poucas. Logo que me mudei, reparei num estranho hábito lisboeta: as pessoas iam ao jornal consultar os filmes que era possível ver nas salas de cinema! Há uns anos que eu não fazia isso. No Porto, já tinha desistido de ir ao cinema. Dentro da cidade, já quase não existem cinemas. Para ver um filme, só os centros comerciais dos arredores. À noite, só de carro (eu não tenho carta). À tarde implicava apanhar teenagers barulhentos. Tudo isto para ver a vulgar estreia da semana. Habituei-me a esperar pelo dvd, que entretanto se tornava mais barato que um bilhete. Para ver um clássico, mais valia saltar directamente para o dvd.

Em Lisboa, o panorama era bastante diferente. Ficava de boca aberta enquanto uma amiga minha não se decidia em relação a qual festival de cinema deveria ir numa certa sexta à noite depois do jantar. Só à terceira tentativa consegui ir ver um filme à Cinemateca porque  estava sempre cheia. Como só ia a Lisboa aos fins de semana, quando está fechada, não tinha à partida grandes hipóteses.

Há uns anos quando se falou em reduzir o número de sessões diárias da Cinemateca houve alarido. Achei mau, mas lembrei que no resto do país mal chega a haver cinema. Só ao Lisboeta é dada a possibilidade da cinefília de pleno direito. No resto do país é quando muito uma actividade sazonal, algo que se vê no ecrã de um computador e que ao cinéfilo mais dogmático parecerá tão rigoroso como praticar arqueologia jogando o Tomb Raider.

E já me habituei às respostas a tudo isto de quem vive em Lisboa: que não é possível estender os serviços da Cinemateca ao resto do país, que não faz sentido, etc. Mais ou menos as mesmas que Bénard da Costa deu para não abrir um pólo da instituição no Porto: que seria uma espécie de violação da ordem natural das coisas – já na altura dessa polémica se brincava que uma alternativa mais barata a abrir o tal pólo seria fazer uma petição para que a Cinemateca deixasse de ser “Portuguesa” e passasse a ser mais descritivamente “de Lisboa”.

Assim, Menezes delira, sim, porque se trata de Menezes e não de alguém com uma visão sincera e vontade de a concretizar, mas é pena. Vir viver para o Porto (ou para o resto do país) implica deixar cair o hábito do cinema, do que tem de alternativo mas também do que tem de histórico. Entre encontrar um público para o cinema no Porto e esbarrar hoje de frente na rua com o pioneiro do cinema Aurélio da Paz dos Reis já não sei o que é menos provável.

Não há dinheiro nem vontade central para que haja cinema fora da capital.

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Filed under: Crítica

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