The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Escolhas

Há uns anos fui ao lançamento de uma revista em Lisboa, onde a personalidade convidada para discursar começou por gabar a iniciativa, louvável num país onde é tão difícil fazer o que quer que seja. Como exemplo desses obstáculos, referiu a injustiça absurda que era não ser possível usar (em Lisboa) fundos europeus de coesão destinados às regiões, adiantando que andava a tentar resolver o assunto em reuniões ministeriais. A revista tinha sido editada numa dessas regiões. A gafe passou desapercebida.

A crise começava a acelerar na altura. Chegava a Lisboa. E já era visível que a toalha da mesa ia sendo sugada do resto do país em direcção à capital, agravando um movimento antigo de escolas, centros de saúde e linhas férreas a fechar.

Lembrei-me mais uma vez disso em relação à Cinemateca. Depois de ter escrito o texto de ontem, dei com um velho artigo de Luís Miguel Cintra a defender Bénard da Costa e a atacar Isabel Pires de Lima. Escrevia ele que:

“Parece-me inacreditável que uma pessoa que há tão pouco tempo era responsável pela condução da política do Estado para a Cultura tenha a veleidade, e passe pela vergonha, de pôr em causa a acção do dr. João Bénard da Costa como director da Cinemateca, para defender a criação de um ‘pólo’ da Cinemateca com o simplório argumento de que os habitantes do Porto vêem poucos filmes antigos.”

Ver cinema que não fosse a “estreia da semana” era precisamente a reivindicação de um abaixo-assinado de gente do Porto que tinha dado origem à polemica entre Bénard da Costa e Isabel Pires de Lima. Cintra continuou:

“Não terá a dra. Isabel Pires de Lima consciência de que pôr a funcionar uma Cinemateca a sério não consiste apenas em ir a um catálogo e pôr filmes antigos a correr? […] Não terá consciência do que é a responsabilidade de “programar”? Pensará a dra. que abrir ‘um pólo’ de uma Cinemateca noutra cidade é a mesma coisa que abrir outra FNAC noutro centro comercial? Não tem vergonha de confundir uma Cinemateca com ‘oferta’ de cinema? Se o que pretende para o Porto é uma sala onde possa ir sair à noite e conviver com o pretexto da projecção de um filme antigo, para depois ir beber um copo, é fácil. Basta fazer uma sala confortável, arranjar um projeccionista, máquina de projectar e um programador que faça uma escolha variada para todos os gostos. Há tanto filme ‘clássico’ à venda em formato DVD na Internet! E para isso não precisa do dr. Bénard da Costa. Mas um ‘pólo’ desses não é a acção de uma Cinemateca.”

Ora o que estava a ser reivindicado não era apenas o acesso a filmes antigos mas a uma programação. Para ver filmes clássicos em DVD não é realmente precisa Cinemateca nenhuma no Porto. A resposta de Cintra concentra bem a condescendência com que essa reivindicação foi tratada.

Anos depois, a Cinemateca está em perigo, as suas cinco sessões diárias, o seu acervo, invoca-se a sua dignidade institucional e o serviço que presta ao país. Relendo a polémica, dá vontade de dizer “Cinco sessões diárias? Há tanto filme ‘clássico’ à venda na internet!” Não o faço porque ando a tentar cultivar o hábito de apoiar causas com as quais concordo embora com reservas. Neste caso as minhas reservas são a resistência da Cinemateca a ter um papel mais alargado sobre a conservação do cinema no país. Há uma década, não se tratava ainda de gastar dinheiro a criar redes de circulação de filmes mas de manter os cinemas que ainda existiam. Agora, já é tarde de mais.

E quando se pede a um eleitor do Porto e de Vila Real para se comover com o possível fim da Cinemateca, a resposta arrisca-se a ser “E?” Em sítios do interior onde quase já não há cultura, e a educação, hospitais, justiça e transportes vão ficando cada vez mais distantes não é fácil ver a olho nu a “dignidade institucional” e o “serviço ao país”. Não se admirem que os votos continuem a ir aos magotes para gente que descreve toda a cultura como uma “despesa”.

Uma resposta de algibeira ao género de argumento que faço aqui é declarar que já não há paciência para regionalismos e para ataques a Lisboa, etc. Peço desculpa, mas fora dos grandes centros não há muitas novidades. Até os problemas são os mesmos desde há décadas.

A assimetria do país não é natural, é uma construção constante, reforçada a cada escolha, e a pergunta que precisa de ser feita cada vez que se decide o que quer que seja não é se isto pode melhorar ou não, mas se essa decisão nos aproxima ou afasta de uma sociedade mais justa.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: