The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

É isto ou equivalente

Gosto de ver The Newsroom embora não perceba muito bem porquê. Diria que é um prazer culpado mas a classificação não faz sentido. É uma série tão bem intencionada que seria como ser vegan às escondidas e pela calada da noite. Os personagens falam muito, disparam tanta resposta espontânea, tanto conhecimento trivial que ao fim de algum tempo já só se ouve o ritmo , assumindo que estamos a ver gente muito inteligente a esgrimir num nível de competência absurdo, uma versão oral dos Jovens Heróis de Shaolin. Não é uma serie realista sobre jornalismo.

Mas tem pormenores interessantes. O personagem principal, o pivô do programa de televisão, é um republicano que, continuando republicano convicto, investe numa cruzada contra o fundamentalismo, a estupidez e a treta que tomaram conta do seu partido. No fundo, é um Pacheco Pereira americano, e é isso que o torna no “boneco” com mais profundidade ali.

Fica-se a pensar como os partidos do “eixo governativo” se tornaram numa espécie de jogo de tupperwares que, mantendo-se ao longo dos anos, são usados para guardar alimentos cada vez mais extremos e até tóxicos. Dentro deste universo, Pacheco e Will MacAvoy (o pivô) representam a nostalgia de um conservadorismo sincero que se tornou radical pela simples razão que não arredou pé quando toda a vizinhança se foi degradando de subúrbio pacífico a zona de guerra.

É uma luta perdida, claro, esta de gente que ainda acredita na argumentação intelectual, no poder dos factos, contra um cinismo predador, cujo discurso mente ou diz a verdade sem que isso faça qualquer diferença.

Outra série que gosto de ver chama-se Suits, sobre advogados e sobre como num ambiente competitivo ao extremo, a fatiota, o apartamento, o gosto, a gabarolice são armas letais. O protagonista é um ex-pequeno traficante de droga, de memória fotográfica, que tendo falhado a admissão ao prestigiado curso de advocacia de Harvard, usa o seu talento para fazer o teste por outras pessoas a troco de dinheiro. Um dia, como expediente para fugir à polícia consegue um emprego como advogado (apesar de não ter curso). É uma boa reflexão sobre como a meritocracia depende do aspecto exterior de quem a invoca. O mérito consiste aqui não apenas na competência mas na ostentação de sinais exteriores de sucesso, bolas de basquete autografadas, o chá mais caro do mundo, etc.

Por outro lado, poderia concluir-se que esta é uma série sobre um Miguel Relvas ou um José Sócrates com super-poderes, e que apesar de não ter concluído o curso, tem aparentemente toda a competência equivalente para exercer a advocacia. Todas as séries de advogados são reflexões sobre o atrito entre a lei e a ética. Neste caso, esse atrito é a da identidade, de quem tem realmente o direito moral de exercer advocacia. Se os melhores advogados têm constantemente de aparentar que o são, não só através das suas vitórias legais mas do que vestem, comem, conduzem ou consomem, se o hábito faz o monge, o que é realmente um impostor, sobretudo se tiver um talento natural para aquilo?

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Filed under: Crítica

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