The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Zombies

Antes da crise, quando o termo “neoliberal” praticamente só era usado como um insulto pela esquerda do extremo para a esquerda, lembro-me de alguém dizer que nos Estados Unidos se chamava à mesma coisa ou quase “neoconservador”. Na altura, não me pareceu que a equivalência fosse exacta, por uma razão etária: o neoconservador era velhote (Bush, Cheney, Rumsfeld) o neoliberal era jovem e atrevido, provocava (João Miguel Tavares, quando muito José Manuel Fernandes ou até Rui Ramos).

A diferença estava também nessa provocação. O neoliberal português vê-se a si mesmo como um rapazola, alguém que se atira contra os dogmas e as doutrinas – a esquerda bafienta, da cassete. Acham que a política é apenas a economia feita por outros meios. Leia o resto deste artigo »

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Não fazer nenhum

Ainda nem chegámos a um terço de Agosto e já toda a gente que encontro se queixa de que “não está bem de férias”. Comigo é o mesmo. Textos para fazer. Projectos para fazer. Quando muito, feitos em sítios interessantes, que  dão o gosto mas não a substância de estar de férias. Leia o resto deste artigo »

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Nomes

Uma vez por outra, passo algum tempo aqui no blog a discutir com alguém porque disse logo em vez de dizer logomarca, logótipo em vez de logotipo, serifa em vez de patilha, patilha em vez de serifa. Para mim, isso é tempo perdido. Não avalio o conhecimento de alguém pela qualidade do vocabulário, excepto quando isso é mesmo necessário.

Não digo que  seja inútil: facilita a vida saber um termo quando se procura uma referência no google ou numa base de dados, mas mesmo aqui saber vários termos é melhor do que só saber um.

Os designers perdem demasiado tempo a discutir o rigor dos nomes das coisas, em geral à custa da discussão das próprias coisas. O melhor argumento que já encontrei sobre a diferença entre saber o nome e ter um conhecimento profundo está no vídeo acima. Da próxima vez que tiver uma discussão sobre a diferença entre fonte e tipo, só vou mandar o link e depois dedico o resto da tarde a jogar Catan no iPAd.

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Um S de pêra, um N de bigodinho

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Um bom indicador da minha entrada na maturidade tipográfica é a piada que acho a estes acentos. Sim, estão encravados nas letras de cima. Ui, ui. Mas esta primeira página do JN melhorava alguma coisa se estivessem bem resolvidos? Continuaria na mesma de tão má. E ainda por cima as letras já não lembravam hipsters.

Há uns anos, andei a brincar com a ideia de uma fonte de aspecto banal mas com acentos flamejantes. Em inglês seria insossa, em português, castelhano ou francês rebentava em ornamentos. Mal eu sabia que o JN já andava a tratar do problema.

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Ajudar

Desabafo: hoje não me estou a sentir caridoso. Como sei isso? Apanhei através do Twitter mais uma daquelas iniciativas onde um bando de designers desenham uns cartazes tipograficamente correctos para sem abrigos. Título do artigo: “Artists help the homeless with elegant typography” – é um lugar comum, bem intencionado, etc., mas já não tenho pachorra. Aliás, só escrevo sobre o assunto porque este consiste em alguém (um designer) achar que pode dar conselhos sobre como pedir dinheiro a estranhos na rua a alguém (um sem abrigo) cuja sobrevivência depende disso.

Quando muito demonstra interesse (o que não é pouco, eu sei), demonstra carinho (idem), demonstra aquele espírito – de – dar – a – cana – de – pesca – e – não – o – peixe.

Já não tanto idem.

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A ética da ilustração

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A propósito do caso da ilustração, ocorreu-me uma forma mais simples de expor o mesmo argumento do texto anterior: imaginem que a Cristina Sampaio tinha feito um desenho que ilustrasse com rigor a opinião de Gentil Martins; imaginem que daqui a muitos anos esse desenho ia parar a uma antologia dos trabalhos da autora, o tipo de obra onde não aparece o texto original, apenas o título ou um resumo. Nestas circunstâncias, não seria apenas o conteúdo do desenho que poderia ser considerado homofóbico mas a opinião da própria ilustradora. Seria até possível alguém fazer uma antologia de design, arte e ilustração de carácter homofóbico e lá estaria a ilustração da Cristina Sampaio. Ela poderia defender-se dizendo que se limitou a cumprir com neutralidade os desejos do cliente mas se é possível reunir os trabalhos de um ilustrador (ou designer) e dizer que ele é um autor, isso pressupõe agência, que é como quem diz responsabilidade pelas suas decisões. Penso que as duas opções possíveis neste caso seriam a recusa de ilustrar um texto com o qual se discorda ou fazer o que Cristina Sampaio fez – com todos os riscos e mal entendidos que isso acarreta, pelo menos ninguém dirá que é homofóbica. Se como se disse pela net, mesmo um homofóbico não merecia ser tratado assim pelo jornal que lhe publica a opinião, tal não implica que um ilustrador deva ser obrigado a agir contra as suas convicções. As opções seriam as que dei acima. No caso da recusa de Sampaio, calculo que os editores ficariam na posição curiosa de ir testando ilustradores até encontrarem um que fosse homofóbico, que não-é-homofóbico-mas ou que pelo menos se estivesse nas tintas.

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Abstenções

neolibterminator

Vou tentar chegar lá, ao argumento, de outra maneira:

Uma das coisas que sempre me chatearam na lenga-lenga neo / ultra / ordo  / patatí / patatá / liberal é a maneira como faz equivaler democracia e mercado. Quase nem é preciso votar porque as pessoas o fazem em primeiro lugar através do modo como empregam o seu dinheiro ou os seus recursos. Para o patatí/patatá/liberal mais extremo, os impostos que (pelo seu ponto de vista) é obrigado a entregar ao Estado são assim liberdade de acção que perde. Naturalmente, as pessoas de esquerda dirão que este modo de pensar, que faz equivaler dinheiro a voto, beneficia quem tem mais dinheiro, e que portanto não é inteiramente democrático, deixa os mais pobres de fora, etc. O patatí/patatá/liberal responde que o sistema premeia o sucesso; quem não tem dinheiro deverá arranjar maneira de o ter, caso contrário qual a utilidade de dar a ouvidos a quem muito obviamente não merece ser ouvido, etc. Leia o resto deste artigo »

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Aprendizes de design, estagiários de feiticeiro

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Desconfio que se fizesse o doutoramento nos dias de hoje o tema seria o estágio em design. Faz uns sete anos que comecei a escrever sobre o assunto. Já penso nele desde o meu primeiro estágio, faz neste Verão vinte anos. Não me passou pela cabeça escolhê-lo por uma razão muito pragmática, a isenção dos avaliadores e do próprio sistema: embora o estágio já seja desde há muito praticado em larga escala e com os mesmos problemas que hoje são bastante óbvios, muitos dos professores que dão aulas de design no ensino superior são designers, têm firmas e aceitam estagiários.

Não é necessariamente mau que o façam. O ensino do design em Portugal começou fora das instituições oficiais, em escolas e estágios mais ou menos informais realizados em ateliers –no de Daciano da Costa, por exemplo. Eram maneiras de ir pensando e testando algo para o qual as instituições oficiais ainda nem tinham um nome, o design.

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Nem o desenho ilustra, nem o texto é legenda

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Uma boa discussão: ontem o Expresso publicou um texto de opinião contra a co-adopção, da autoria de Gentil Martins, a acompanhá-lo o desenho acima, de Cristina Sampaio. Se o texto assegurava que a co-adopção fazia diferença, a ilustração assegurava que não. Naturalmente, isto deu discussão na tuitósfera. Que era mau, que a ilustração devia bater certo com o texto. Que a ilustradora tinha direito à sua opinião. Que e se fosse ao contrário um texto a favor da co-adopção ilustrado por um ilustrador contra?

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O Povo não é quântico, pá

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A crise política começou depois de uma série de greves entusiasmadas, crispadas e consequentes (só quem nunca repara em greves poderá dizer o contrário). Só não tiveram mais consequências porque Gaspar se demitiu com uma carta onde reconhecia o erro fundamental que é a austeridade. Na altura, depois da greve, isto parecia quase uma prenda de Natal ao país. E não ficou por aí. Paulo Portas demitia-se no dia seguinte porque não concordava com a sucessora escolhida de Gaspar. Era o fim do Governo, ou pelo menos assim parecia. Entusiasmo. Passos não aceita a demissão. Propõe a Portas o Vice-Primeiro-Ministério. Portas aceita. Demonstra que a política é uma erupção da física quântica na vida pública. Pode dizer sim e não ao mesmo tempo: é o Portas de Schrodinger, que se demite irrevogavelmente promovido a segundo primeiro ministro perdendo a credibilidade para assumir mais responsabilidade assegurando o consenso. O entusiasmo esmorece: o povo não é quântico. Mas não se preocupem. Cavaco está (finalmente) aí: não aceita o novo Governo (entusiasmo) e pede a Seguro que negoceie. Eleições daqui a um ano. Até lá nada de oposição. Medo: e se ele aceita tudo!. Mas não! Contra todas as expectativas Seguro manda-os dar uma curva (entusiasmo). Cavaco, que não aceitava a proposta de remodelação, afinal aceita-a. Pelos vistos, a única coisa que faltava para a remodelação era Seguro não concordar com ela. Agora Passos vai de férias e Portas faz a rodagem ao volante do país: o homem do partido do táxi torna-se no taxista supremo. A sensação que fica para já? Os papéis invertem-se: agora é Passos que foge e Portas que dirige. Se a estratégia der certo Passos pode fazer de Portas daqui uns tempos, e voltar triunfalmente com uma demissão promocional que trará mais austeridade expansionista e mais crescimento austero, principalmente se Portas falhar. Pode até tentar um segundo mandato. Se não for assim, também não faz diferença. Durante a crise apareceu Rui Rio a fazer oposição a Passos. Não interessa que Rio seja um Gaspar do poder local. O que interessa é que neste momento o Governo do Não Há Alternativa tem alternativas para todos os gostos: Passo que é o Governo mas também a oposição; Portas que é o Governo mas também o líder da oposição; Rio que dá esperança às hostes que o neoliberalismo ainda funciona (porque o Governo não é neoliberal, se fosse as suas políticas tinham dado certo). Depois disto tudo o entusiasmo quase desapareceu. Passos e Cavaco também. Portas mudou-se para o jardim zoológico e dirige o país. O escândalo dos swaps assegura que ainda há esperança. Os comentadores pró-istotudo congratulam-se que os protestos foram de férias. Que agora é só continuar assim durante os próximos dois anos e está tudo safo.

Como resumir isto tudo (1ª tentativa): O Governo é como aquelas pessoas que quando se sentem em perigo à noite fazem de conta que são maluquinhas. Neste caso, uma coreografia que faz o filme indiano típico parecer um filme do Pedro Costa. Produzem uma nuvem de tinta quântica que atordoa os predadores sem violar nenhuma lei da física (este governo não viola a lei) só a ética fundamental do universo.

Como resumir isto tudo (2º tentativa): a gravura acima.

Conclusão, a maneira de manter isto tudo a funcionar é um malabarismo permanente, cíclico, que depende de uma parte do governo estar sempre hipnoticamente prestes a desabar.

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O Espelho e o Martelo

Tenho andado a ver o documentário da HBO sobre as Pussy Riot. Começa com uma frase atribuída a Brecht: “A Arte não é um espelho que reflecte a sociedade, mas um martelo para a moldar.” Tenho pensado muito nela. Muita da arte política que tenho visto nos últimos tempos, desde a crise, tem feito o papel de espelho, trazendo para dentro da galeria, da exposição, da bienal, a política que se faz cá fora: cartazes, slogans, publicações, frases que se podem ler no facebook ou em grafitti. Parece pouco, por comparação com o contexto onde esses objectos apareceram originalmente. Fica a sensação que a arte não consegue sair do seu papel de etnógrafo ou documentarista, registando e reflectindo, para depois expor o resultado em salas brancas. Pode parecer pouco, mas neste momento em Portugal proibiu-se o grafitti. Todo o tipo de grafitti. No Porto já se apagaram das paredes. Muito do que se escrevia eram meros rabiscos, mas havia também intervenção mais consequente, que em geral era feita sobre edifícios em ruínas. Não estragava nada que já não estivesse estragado. E tudo isso poderá desaparecer porque se torna extremamente arriscado. Assim, trazer isso para dentro das galerias, trazer isso para dentro do museu, é um modo de o preservar e de o dignificar, transmitindo a sua mensagem. É claro que a arte tem os seus anti-corpos em relação a isso: que a arte política morre no museu. Mas neste caso particular arrisca-se a morrer nas ruas.

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Os mais fracos

Dizendo de um modo conciso aquilo que tenho distribuído por textos, posts e aulas: é praticamente impossível não ter uma posição política sobre os estágios.

Dentro do design, o estágio é desde há décadas identitário. Faz parte do percurso esperado, da carreira. O estagiário é, até certo ponto, o descendente do aprendiz. Mas os tempos do aprendizado já lá vão: a ideia de demorar uma década a aprender uma tarefa, de entrar numa oficina ainda criança para sair de lá um profissional, já passou há muito. E enquanto durou teve os seus problemas: no aprendizado era suposto aprender-se mas havia demasiadas oficinas sem escrúpulos que o usavam para obter rapidamente mão de obra barata. Daí começar-se a ensinar a tipografia em escolas reguladas pelo Estado.

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Estilo e Geração

Já há muito tempo que deixei de acreditar na minha própria geração. Daqueles problemas que achávamos fáceis de resolver nas gerações anteriores, não resolvemos nenhum. Nas artes e no design, a minha área, a minha geração faz agora parte de um academismo 2.0 mais electrónico, mais burocrático, e portanto mais autoritário mas mais irresponsável que o clássico (“Também não sei para que serve mas foi a reitoria que mandou fazer”).

Do mundo, acabamos por só mudar as caras acima dos pescoços, a roupa abaixo e os chavões que saem da boca.

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Leituras de Verão

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Não exactamente em férias mas tão saturado de burocracia e de estar a ler teses, papers, programas curriculares e o resto, que já só absorvo gralhas e problemas de pontuação — o resto é como se fosse ruído. A solução? Ir de fim de semana para o meio do campo com uma colecção irrealista de livros (calhamaços) para ultrapassar: Infinite Jest (David Foster Wallace), Perdido Street Station (China MIeville), Pickwick Papers (Charles Dickens) mas o que tenho acabado por ler mais é Intern Nation: How to earn nothing and learn little in the brave new economy (Ross Perlin), sobre o estágio. Tem sido um fartote de informação, sobretudo histórica. Sabiam que a disney tem um dos maiores e mais antigos programas de estágios? E que chamam às “pós-graduações” os “moussters” e os “ducktorates”?

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
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Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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