The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A doença das maquetes

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A Nova Aldeia da luz tem os passeios largos e as paredes muito rectas. Os frisos coloridos das casas parecem ter sido desenhados com uma régua. Disseram-nos que as lages de xisto do chão do museu foram cortadas a laser. Os números das portas são todos iguais, algarismos brancos sobre um fundo azul escuro, recurvo, que dificulta um pouco a leitura, sobretudo de um carro em movimento. Por toda a parte, há plantas da nova aldeia. Há uma à entrada. Não tem legenda. Não serve de mapa. Não indica nada, a não ser que o maior monumento desta nova aldeia é o seu projecto, a sua planta.

O museu também tem duas ou três plantas em relevo, maquetes, uma delas feita com grandes lâminas mal ajustadas de madeira tosca, meio comidas pelo caruncho. A casa onde temos ficado (o quarto onde escrevo) fica directamente por cima de uma das falhas. (É a que fica mais acima na foto)

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Um dos senhores que nos tem ajudado mostrou-nos um grande modelo da velha aldeia que anda a construir no seu casão, cada casa esculpida e pintada à mão a partir de grandes traves de gesso. Numa das casitas, castanha, uma janela foi deixada em branco, porque “costumava ter aquele estore sempre fechado”. Quando lhe perguntámos se tinha feito a aldeia com moldes, respondeu a rir que se fosse com moldes mais valia fazer a nova. Trabalhava a partir de fotografias, um maço delas, disse que se lembrava mais à medida que ia construindo.

Esta é uma zona contagiada pela doença modernista das plantas e das maquetes. (No centro recreativo da aldeia vizinha da Estrela há uma maquete em relevo cuja legenda é também uma maquete em relevo à mesma escala. Uma maquete dentro da maquete.) Quase espero que o bolor que cresce nos cantos dos tectos assuma nesta região a forma de arruamentos ortogonais, esbatendo-se na cal como as estradas que desaparecem na água.

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Cada uma destas maquetes, inclusive a maior, à escala 1:1, a própria aldeia, não são apenas planos para o futuro ou recordações do passado, mas opiniões que se atiram umas contra as outras. As obras que alguns dos meus colegas de residência planeiam construir também: comentam ou sublinham um pormenor, uma contradição, um detalhe mais bonito.

Da nova aldeia, o que mais gosto é o quintal da casa onde estou. Está por plantar, palha e erva seca até ao muro. Quando cheguei pensei por um instante que o muro era o horizonte. Quase não se conseguia distingui-lo do céu, um efeito que imagino semelhante ao de certas obras de James Turrell (nunca as vi ao vivo).

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Ao fim de uns dias, não consigo deixar de me lembrar da Atlântida, o protótipo (a maquete?) de todas as cidades perdidas debaixo das águas. Segundo Platão, também tinha uma planta geométrica, círculos concêntricos e ruas em ângulos rectos — o que é estranho. Eu cheguei aqui vindo da Baixa Pombalina que, tal como a Aldeia da Luz foi reconstruída depois de uma catástrofe. Só os grandes desastres permitem a geometria absoluta. Ou a Atlântida já era ela mesma uma reconstrução ou então no mito o antes e o depois foram-se confundindo até se tornarem num só: a nostalgia do passado destruído e a desilusão quando se percebe que toda a nova geometria por mais depurada não a pode curar ou substituir.

É possível que a Atlântida seja apenas essa insistência na possibilidade de a reconstruirmos.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Álvaro diz:

    Tanta preocupação com a forma mas nem assim conseguiram receber com português correcto: escreve-se bem-vindo (com hífen, mesmo para quem siga o AO90).

    Peço desculpa pela minha nota, uma minudência no plano geral do artigo, mas é um daqueles erros que me incomodam às entranhas, de tão prolífico. Outra doença nacional, esse benvindo (ou bem vindo, ou bemvindo…).

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