The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Atrofio

Começou o novo ano lectivo como de costume, tal como tinham começado e terminado os anteriores, com burocracia. Meter os programas de cada cadeira no sistema informático, que muda de ano para ano tornando obsoleto quase todo o trabalho anterior. Agora até é preciso preencher em (quase) duplicado porque há avaliações externas. E o sistema tem sempre e tradicionalmente erros que é preciso resolver por mail. Ou por telefone. Tudo isto trabalho roubado às aulas, à investigação ou ao emprego de outra pessoa – porque ao fazer isto estou a colaborar na automatização do trabalho de secretaria, contribuindo para a eliminação de alguns postos de trabalho.

Esta automatização poupa-me tempo? Não, poupa dinheiro a quem emprega. Melhora o serviço? Devem estar a brincar. E é claro que há ideias de trazer isto para a sala de aulas, de comunicar com os alunos via e-burocracia, um nome mais justo para o e-learning. Já se tornou habitual responder que não, não se pode fazer uma cadeira por e-mail, que dá muito mais trabalho estar a responder por escrito a dúvidas que na grande maioria dos casos não o seriam se o aluno aparecesse nas aulas.

Outra função deste “sistema” é a avaliação e registo permanente de tudo e mais alguma coisa, que, pelos vistos, é a marca das sociedades neoliberais, onde a responsabilização do indivíduo pelos seus actos, a sua liberdade, precisa de ser constantemente emplastrada de burocracia arbitrária, de exames, relatórios. E quem ache absurdo e até opressivo estar eternamente disponível, ser constantemente testado, ainda terá de aguentar a acusação de não querer ser avaliado. Como se só houvesse a escolha entre uma vigilância total e a anarquia.

Dirão que é o preço de ainda ter um emprego. Mas não, também é o preço de não o ter. Pelos meus amigos desempregados, percebo que é exactamente a mesma coisa: para receberem o subsídio de desemprego estão sujeitos à mesma avaliação constante, a uma vigilância bem pior, quase prisional – passar o dia em filas, estar sempre atento à caixa do correio não vá aparecer uma notificação. O emprego evapora-se e só sobra um resíduo tóxico de burocracia.

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Filed under: Crítica

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