The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Bicho do Buraco

Não consigo, como alguns amigos meus, ver uma manifestação como uma festa. Intelectualmente percebo a ideia e até gosto. Mas o meu próprio corpo não me deixa pô-la em prática. Nessas ocasiões, saio tenso para a rua, e só acalmo quando volto para casa. Numa das últimas manifestações pedi a uma amiga para me acompanhar, para não nos encontrarmos lá, onde nos poderíamos desencontrar, mas antes, em casa dela. Pedi-lhe isso porque tinha medo. Irracional, é certo, mas ainda assim medo.

Nem sempre tive este medo. No meu caso, a charneira foi ter sido agredido em público, no meu local de trabalho, perante a passividade de quem assistia e sem qualquer consequência para o agressor. Tive assistência psicológica mas desde então prefiro ficar em casa, escrever, publicar, debater as coisas com a distância intelectual que a escrita e a internet permitem. Tornei-me ágorafóbico, não no sentido de alguém que tem medo de espaços abertos mas no sentido mais literal de ter medo dos espaços públicos concretos, activos, em que a política se faz através dos corpos e às vezes – demasiadas – da violência.

Tornei-me, em suma, um bicho do buraco.

Combato a tendência sempre que posso, com a ajuda de amigos, mas nem sempre é possível. No dia da carga policial do Chiado, por exemplo, estava a sair de uma gripe, ainda um pouco febril e decidi não ir à manifestação. Ao fim do dia, resolvi ir dar uma volta pelos alfarrabistas. Assumi que tinha perdido toda a acção. Descia com um saco de livros em cada mão a Rua de Serpa Pinto em direcção ao Chiado e entrei com um estremeção nos momentos que se seguiram à carga com ambulâncias, gente parada a olhar, uma mulher a reencenar por gestos uma agressão no mesmo ponto onde mais tarde soube que um jornalista tinha sido agredido. À volta disto tudo os turistas e os lisboetas apressavam-se. Uns dias depois, sentado com duas amigas na esplanada da Bénard, ali mesmo, uma delas disse que depois da carga tinha, a caminho do emprego, atravessado para o outro passeio em frente à esquadra da polícia. Nunca lhe tinha acontecido antes.

Também tive medo em frente à Assembleia da República, numa das manifestações, quando a Polícia de Choque formou ao cimo da escadaria e dos canteiros. E tive medo quando a população invadiu pacificamente a Escola da Fontinha e no caminho para lá reparei nos carros de polícia que cercavam à distância o bairro (acabei por não entrar).

Assim, quando me dizem que em Portugal não tem havido violência, eu respondo que tem havido a violência suficiente. Saber infligir a violência suficiente para calar uma sociedade exige uma competência que não se pode respeitar, a genialidade e a cobardia de esconder o crime no momento em que é praticado. Não é coisa que se faça apenas com  bastões, claro, mas com a criação de um panteão de Bichos Papões – os mercados, o fmi, o bce, os ricos, os pobres, os funcionários públicos, etc.

Sobre este medo que encaixa tudo e todos no sítio certo, esperado, autorizado, nos seus buracos, há uma música de que gosto, chama-se “Medo do Medo”, de uma cantora chamada Capícua. Valia a pena citar tudo, mas perde-se alguma coisa na  transcrição, portanto fica só isto: “Ouve o que eu te digo vou contar-te um segredo: é muito lucrativo que o mundo tenha medo.” E enumera-se todos os medos possíveis da doençe, da velhice, da pobreza, da polícia, de estar sozinho ou rodeado de gente. Poderia ser um hino para os tempos que ocorrem excepto que os hinos costumam ser optimistas.

Mas talvez não seja possível outro género de hino porque o optimismo e a confiança também nos foram de algum modo retirados e postos no mercado. Há um tráfico implícito entre o medo da sociedade e a confiança dos mercados. Antes ainda se falava na confiança do consumidor, agora essa expressão é um equivalente económico (barato portanto) da ideia de bem-estar que poderia ser trocada por uma confiança dos mercados que insiste em não chegar. O nosso medo existe porque é importante que os mercados ganhem a confiança. Existe portanto um cãmbio quase explícito entre o medo da sociedade e a confiança dos mercados, uma proporção inversa – que dá também a entender que mercado e sociedade são também realidades que se excluem uma à outra: quanto mais sociedade menos mercado e vice-versa. Quanto mais uma tem medo, mais o outro tem coragem – no  meio de todas as outras, discreta, está também uma privatização da coragem e uma nacionalização do medo.

Pessoalmente, tenho medo da coragem dos mercados, sabendo que foi essa suspensão do medo que os levou a ignorarem os riscos que nos trouxeram a crise actual. Preferia que os mercados tivessem algum medo, o suficiente para não fazerem asneiras. Se calhar não medo dos outros, mas outro tipo de medo: pelos outros – um respeito.

Para já, parece-me pouco provável. Há uns anos falava-se do fim da história, das utopias. Que agora íamos viver numa paz relativa, policiada, mas onde a guerra era um resíduo, sobrevivendo sob a forma de uma espécie de doutrina do medo, um Terrorismo. Fora isso teríamos o capitalismo triunfante e benévolo, sem inimigos, sem alternativas, uma utopia, no fundo. O único medo seria falhar. Agora, percebe-se que o anunciado fim das utopias não o era: preparava uma nova utopia, mais discreta e inconsciente de si mesma, o capitalismo tornava-se no mercado enquanto sistema social completo. A economia tornava-se numa nova Linguagem Universal capaz não apenas de falar sobre tudo, mas de resolver tudo: a saúde, a educação, a ética, tudo tem um modelo económico. A economia está na sua fase heróica, de queixo levantado e a olhar o horizonte.

Mas se já vimos que há uma relação entre o medo da sociedade e a coragem dos mercados, a solução será tornar a coragem de novo numa coisa pública, demonstrando-a nas ruas, em casa, no trabalho, na internet, sobre o papel, sobre o ecrã. É disso que os mercados têm medo.

Originalmente publicado no número do jornal O Buraco dedicado ao medo.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. […] Hoje vou andar a escrever outras coisas, portanto se quiserem ler alguma coisa substantiva, experimentem ler o texto que postei ontem até ao fim. É uma espécie de teoria crítica sobre o que pode ser (e tem sido) uma arte política (incluindo design). Foi um dos textos que mais gostei de escrever no ano passado, juntamente com o Bicho do Buraco. […]

  2. […] minha parte, eu (que dedico boa parte da minha vida a escrever e a opinar em público mas sempre que vou a uma manif tenho que ultrapassar um medo constante por mais pacífica que seja a ocasião) gostava também de deixar aqui a minha solidariedade para […]

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