The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Liberdade

Esta semana dei com o filme acima através do facebook. É um anúncio chileno de aparelhos de televisão onde é pregada uma terrível partida a gente que se candidata a um emprego. Atrás do entrevistador está um ecrã de alta definição simulando uma janela, com uma vista para a cidade. De repente, sem aviso, cai um meteorito, a cidade é destruída, uma nuvem de poeira avança para a “janela” e as luzes da sala apagam-se. O candidato é filmado com uma câmara de infravermelhos, de gatas, a tactear às cegas. No fim salta a equipa sorridente a apertar-lhe a mão. Espero que sejam todos actores. Só imaginar que se faz isto a sério dá-me vontade de vomitar.

É a típica cena dos Apanhados, um tipo de programa que sempre considerei ofensivo e predatório. Televisão barata, sem grande orçamento ou argumento, um grau zero de reality show. O primeiro que vi era um filme Sul Africano onde a vítima era quase sempre um negro à procura de trabalho ou no primeiro dia do que pensava ser um novo emprego. Acho que ainda não tinha dez anos, mas achei aquilo vergonhoso. Nem sei se já tinha conhecimento da palavra “racista”, mas impressionou-me o modo como se gozava com gente numa situação óbvia de fragilidade.

Também esta semana, li um artigo sobre um serial killer que encontrava as usa vítimas através de um anúncio de emprego no Craigslist. Tinha afinado o anúncio para chamar a atenção de homens na casa dos quarenta, desempregados ou com maus empregos, sem grandes ligações familiares.

E já nem falo dos inúmeros concursos de televisão que se resumem a uma entrevista de emprego ou a um estágio levados ao limite da humilhação.

Neste momento, há todo um conjunto de actividades predatórias que se enxameiam a volta dos desempregados, gente que está numa situação de fragilidade extrema e que portanto é particularmente disponível para servir de matéria prima a toda uma “cultura” de brincar aos e com os desempregados. Não é apenas dos maus anúncios de emprego que se deveria ganhar vergonha mas disto.

Temos uma sociedade que se indigna quando é mal tratado um cão ou um gato (e faz bem) mas consome doses industriais de humilhação humana, da celebração da precariedade elevada a espectáculo de massas. Alguns dirão que só participa e só assiste quem quer, que a diferença entre um animal e uma pessoa é a sua responsabilidade individual, de estar ali porque quer. Mas essa responsabilidade individual é um trabalho de engenharia social, de amputação calculada de todos os vínculos sociais possíveis, no fundo de toda a responsabilidade colectiva, da própria possibilidade de nos responsabilizarmos uns pelos outros. Cortando isso tudo, sobra – dizem-nos – a liberdade.

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Filed under: Crítica

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