The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Apagam-se as luzes

Antes de começar digo já: assinei a petição para salvar a cinemateca. E, como já tinha dito em outras ocasiões, fi-lo apesar de não concordar com quase metade dos argumentos usados. A saber, o que concordo: acho que é essencial haver um repositório que conserve películas e também acho essencial que essas películas sejam conservadas e exibidas ao público em condições ideais. O que discordo: fazer-se um cavalo de batalha das cinco sessões diárias a preços reduzidos na Rua Barata Salgueiro. Que seria uma tragédia acabarem, etc.

Peço desculpa, mas seria uma tragédia exactamente igual, do mesmo tamanho, se a Santini fechasse, toda a Santini e não apenas a do Chiado. Em Lisboa, ouvir-se-ia um urro. Correriam petições. Ia aparecer uma peça no jornal da noite. No resto do país, a primeira reacção seria perguntar o que é a Santini. A segunda seria perguntar porquê todo este escarcéu por causa de uma gelataria.

Ainda esta semana ouvi aqui no Norte gente a perguntar-se de onde Barreto Xavier tinha sacado o dinheiro para salvar a Cinemateca. Foi uma excepção, mas a coisa cai mal quando há hospitais, universidades, tudo e mais alguma coisa em risco de fechar ou de despedir. E percebe-se perfeitamente a função de uma escola ou de um centro de saúde. No caso da cinemateca percebe-se a função de arquivo, mas a de divulgação ao público é quase totalmente inexistente, fora as tais cinco sessões diárias.

A função de uma biblioteca pública não é apenas conservar livros mas o Livro, que inclui práticas de leitura, discussões à volta do tema, etc. A função de uma cinemateca não deveria ser apenas conservar películas mas o próprio Cinema, que já foi uma actividade comunitária, pública e que neste momento, na maioria do país, se extinguiu. Há uma dúzia de anos teria sido possível conservar esse Cinema com C maiúsculo.

Mas a Cinemateca sempre insistiu que tal não era possível. Mal tinha dinheiro  para a conservação dos filmes e para o material para os exibir na Barata Salgueiro. E de resto o país é pequeno demais para ter duas, três, uma rede de cinematecas. Para isso bastariam os cineclubes, ou como sugeriu Luís Miguel Cintra, DVDs, um projector de vídeo e cadeiras confortáveis. E se a ideia é mesmo ver filme antigo em película, não é assim tão difícil ir até Lisboa, há auto-estradas e comboios. Uma ou duas pessoas até me lembraram que a Cinemateca nem tem condições para exibir filmes nos mais recentes formatos digitais, e que em Guimarães se instalou uma dessas salas durante a Capital da Cultura, mas agora está às moscas – bom, se a ideia é mesmo ver filme digital com qualidade, não é assim tão difícil ir até Guimarães, há as mesmas auto-estradas e comboios que levam a Lisboa.

Quando falo disto, algumas pessoas dizem-me que o importante agora é salvar a Cinemateca e não pô-la em causa. Mas, sinceramente, só me dá vontade de salvar metade da Cinemateca, a que conserva os filmes, a outra, a que os divulga, tem sido um falhanço quase completo.

Anúncios

Filed under: Crítica

One Response

  1. […] Lembro-me de há uns tempos ter assinado a petição para salvar a Cinemateca apesar de não concordar com uma parte importante do que foi reivindicado. Assinei mas qualifiquei a minha posição. […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: