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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não se pode ter tudo

Neste assunto, estou com o Alexandre Pomar: há festivais a mais em Lisboa. Não o digo porque acredite que não têm público. Em geral, as salas estão cheias. Ou porque um filme num festival de cinema me impeça de assistir, ao mesmo tempo, a filmes nos outros dois ou três festivais que acontecem ao mesmo tempo, para não falar das exposições, conferências, lançamentos, etc. Escolher é isso mesmo, preferir uma opção e esquecer as outras. Não se pode ter tudo.

Mas chateia-me que esta hiperabundância trivialize a oferta cultural em Lisboa enquanto no resto do país tudo esteja mais do que  seco.  Alguns dirão que as coisas são assim, que é natural. Mas a natureza pode ser corrigida.

Quando se fala de uma sociedade cada vez mais desigual, é também disto que se fala, numa geografia cultural cada vez mais assimétrica, que no limite se torna numa cultura da assimetria, que a promove: se não há produção cultural na periferia, a maioria dos criadores emigrarão para o centro piorando o problema.

Seria possível haver políticas de redistribuição de apoios que impedissem que o excesso de oferta na capital se transforme em tédio enquanto em outros sítios tudo desaparece. Já nem sequer há um resto de oferta.

Não se pode ter tudo, mas pode-se tentar distribuir o que se tem de modo mais justo. Nem sequer tentar não deveria ser uma opção.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Mário, invejo-te. No entanto, (o que vou dizer a seguir pode parecer um paradoxo) essa overdose que sentes, incrivelmente também a sinto por bragança.
    a cidade de bragança (numa área de 12 km2) tem cerca de 24000 habitantes (sendo que durante o ano lectivo, os alunos do Insti. Politec. aumentam este número em cerca de 5000 a 6000 pessoas) e para este universo existe (se não me falha algum) os seguintes equipamentos culturais públicos: um teatro municipal (com 10 anos), um centro de arte contemporânea (com pouco mais de 5), um museu nacional (museu do abade de baçal) um museu ibérico (museu da máscara e do traje) um museu etnográfico (museu dr. belarmino afonso) um centro cultural (com 2 salas de exposições + 1 auditório + 1 conservatório) um centro de fotografia (centro georges dussaud) (inaugurado este ano), uma sala de exposições na biblioteca municipal, mais um auditório (paulo quintela), um museu militar, um centro de ciência viva, um arquivo distrital (com sala de exposições e auditório). a acrescentar pela iniciativa privada existem 3 galerias de arte, 4 salas de cinema… assim como várias associações culturais e artísticas a produzirem “n” eventos.
    só por si, o instituto politécnico (com um peso social significativo para o universo da cidade) tem 3 licenciaturas na área artística sendo que cada curso e departamentos afins produzem “n” iniciativas ao longo do ano (exposições, concertos, conferências, workshops…). neste caso, chegamos ao ponto de haver alunos individualmente (por exigência de algumas disciplinas destes cursos) a produzir o seu próprio evento.
    é nesta lógica que sustento o que disse no início, em que muitas vezes são mais os eventos que me passam ao lado do que aqueles a que consigo aderir.

    no entanto, por bragança somos aquilo que Umberto Eco designou como uns “happy few”. basicamente o universo cultural é composto pelas mesmas (relativamente) poucas pessoas. em mim, existe sempre um sentimento de que os eventos raramente têm uma afluência significativa (a chamada “casa cheia”) (a menos que a casa seja mesmo pequenina!!!)

    isto leva-me a pensar que, então, o que falta será, que a estratégia cultural esteja apontada à tão famosa (desejada???) “formação de públicos”.

    pela tua descrição, talvez lisboa possa estar com algum avanço nesse aspecto, pois se as iniciativas são tantas e concorridas, há um público que as sustenta e portanto consideremo-lo consciente desse acto. o “bo-bo” (bourgeois bohème) de que fala alexandre pomar, é também uma espécie de potenciação cultural do próprio acto cultural em que toma por conta, a consequência de um acto social do mesmo (grandes aglomerações, chamam mais pessoas…)
    assim, também não sei até que ponto é que existe uma relação entre a quantidade potencial de público de um meio qualquer e o evento em si, para o seu “sucesso”.

    quando dizes que o resto do país está a seco no que toca a toda uma agenda cultural, acho que não será assim tão rigoroso afirma-lo. por isso, entra-se no dilema da visão do problema a jusante ou a montante? a falta de apoios leva os criadores a fugirem da periferia? ou a falta de público leva que os apoios sejam canalizados para onde ele existe?

    por princípio social, os “happy few” de bragança serão tão considerados como os “happy many” de lisboa. no entanto sabemos que em democracia, a maioria é que conta. e em portugal leva-se muito a peito a democracia….! como exemplo, bragança não tem sala de cinema em funcionamento desde janeiro de 2012! dizem eles que não há público!!!

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