The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Procura-se Procura

Ontem queixava-me eu do excesso de eventos, e propunha que a solução seria não incentivar a oferta de eventos culturais mas a sua procura – se um estudante ou professor não passar o tempo todo a trabalhar na produção de eventos, terá tempo para os frequentar.

Gosto desta solução porque é passiva. Não dita nem quer saber onde  o público gasta o seu tempo livre. A moda do evento é uma consequência do controle cada vez maior que se exerce sobre a vida das pessoas, em especial na cultura e no ensino superior – cada momento é contabilizado: tempo de contacto, tempo de trabalho autónomo, etc. E cada um desses momentos precisa de ser o mais eficaz possível: uma mera avaliação vale bem mais se for apresentada como um evento público, com cartaz, página do facebook e inauguração.

Há evidentemente soluções menos passivas, como incentivar a produção de conteúdos e não a sua gestão. Neste momento, o comissariado, uma tarefa antiga dentro da esfera cultural, tornou-se numa moda (já existem jantares e festivais de música comissariados), que reflecte precisamente uma cultura que monumentaliza muito mais a gestão do que a produção de conteúdos. Eventualmente, mesmo os produtores (os artistas) de conteúdos acabam por se começarem a comportar como gestores, comissariando-se a si mesmos e produzindo os seus próprios eventos. A marca mais óbvia desta tendência é a exposição onde um comissário convida artistas que comissariam por sua vez outros tantos artistas (e assim sucessivamente).

Outra possibilidade: investir mais em crítica, nem digo numa crítica profissional mas numa relação mais crítica do público com a cultura. A crítica portuguesa nos últimos anos tem-se dedicado a falar em nome dos artistas, dos comissários, das instituições e dos clientes (uso este termo para incluir os compradores de arte, arquitectura, literatura, música e design). É sintomático que no caso das artes, boa parte desses críticos acabe por ir parar ao campo do comissariado. Mas uma das funções mais interessantes e importantes da crítica é falar em nome do público, do espectador. Pessoalmente é a minha favorita: o crítico enquanto público. Não é uma crítica que seja facilmente transformada em folha de sala ou infotainment. Dando voz pública ao público (não uma só voz mas várias) permite legitimar o mero espectador. A sua posição deixa de ser a daquilo que sobra no meio dos eventos para se tornar central.

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Filed under: Crítica

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