The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fadiga de Futuro

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A semana passada trouxe de um alfarrabista duas caixas de folhas de decalque Mecanorma. Não me servem para muito. Não faço design fora do computador. O impulso que me levou a pagar quinze euros foi uma espécie de dor fantasma, daquelas que se tem num membro amputado. Se tivesse encontrado tudo aquilo enquanto estudava nos anos 90 teria sido um tesouro. Agora, é apenas nostalgia.

Imagino que alguém tenha vendido aquilo por necessidade: um pouco mais de espaço e uns trocos. Ou então um designer reformou-se. Faliu, talvez. Ou morreu.

Sei que gosto destes objectos em parte porque são um antídoto para o futuro. Há uns dez anos o design estava cheio de futuro. Estava na moda. Agora, o futuro cansa. A crise trouxe-nos um calendário rigoroso de metas a cumprir, cada ano que se avizinha começa por ser de viragem, depois é uma luz ao fundo do túnel, um sacrifício que importa ultrapassar, finalmente um falhanço. O futuro seca e morre quando lhe tocamos. Avançamos para ele como uma mancha de bolor sobre uma parede.

Daí que me canse a utopia fácil. Já não aguento bem exposições ou conferências onde se especula que o futuro vai ser assim ou assado. A última que vi do género foi a do Futuro Perfeito no Museu da Electricidade. Ficcionava cidades na Índia que eram o seu próprio interface, bosques com bagas que vacinavam contra a raiva os lobos que por elas vagueavam e tudo isto me pareceu mais do que datado, desactualizado, daquela altura em que o futuro bastava como argumento. Não era preciso justificá-lo, apenas especular que seria estranho e diferente do presente.

Agora, qualquer anúncio da Apple ou de um canal da Tv Cabo nos promete quotidianamente esse exotismo. E se queremos um projecto colectivo para o futuro, o Governo ou a Europa encarregam-se de nos dizer onde passaremos as próximas décadas. O nosso futuro foi literalmente hipotecado pela calada. Agora percebo e reclamo a mesma a ausência de futuro dos punks e dos nihilistas. É mais optimista do que as visões de futuro que nos querem vender. Fala de liberdade e de não dever nada a ninguém.

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Filed under: Crítica

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