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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Arquitecto-Estrela

A propósito da Trienal de Arquitectura, já ouvi mais que uma pessoa a perguntar: Mas onde estão os alunos e os professores? Não se interessam? Não se está a discutir o futuro deles?

Não que a Trienal esteja às moscas: as inaugurações estão de tal modo cheias que os seguranças são obrigados a dosear as entradas e as saídas. Os eventos mais pequenos, visitas guiadas e discussões, também não estão sequer perto de estarem vazios mas não há tantos alunos e professores como se gostaria. E lá se diz que as novas gerações não se interessam, etc. E é injusto.

Há uns dias atrás, comecei um texto com estes mesmos dois parágrafos e em seguida dei uma possível resposta, que os alunos e professores estariam demasiado ocupados com os seus próprios eventos para terem tempo para outros. É uma resposta parcial, que merece ser um pouco mais desenvolvida.

Na Trienal tem-se discutido¹ porque foram os estudantes em massa a uma apresentação de um dos últimos Pritzker e não aparecem no resto dos eventos. A explicação é bastante simples: quando há muito para ver, é preciso persuadir o público que o nosso evento é importante. Não falo de publicidade, claro, mas de argumentação: é preciso dizer porque deve alguém perder umas horas connosco.

No caso do Pritzker, é o clássico argumento de autoridade. Por mais que se critiquem os arquitectos-estrela (não gosto da expressão starchitect), eles têm cumprido uma função importante: de, através do seu prestígio, desbloquearem obras polémicas que de outra maneira seriam ainda mais contestadas – veja-se Souto Moura e a futura barragem da Foz do Tua. Em tempo de crise, alcançar o estatuto de arquitecto-estrela é a garantia que haverá dinheiro para nós mesmo que não haja para mais nada. (Reparem que, se a arquitectura parece estar a ser castigada pela crise, as artes plásticas só recentemente conseguiram o seu “Pritzker” de serviço na pessoa de Joana Vasconcelos, mobilizada também ela para o Tua.)

O arquitecto-estrela é o argumento de autoridade no estado puro, usado para calar qualquer discussão. E é significativo que quase todas as suas intervenções se reduzam a anedotas de profissão, provocações e manifestações oraculares, que dão a entender que a sua vida é mais banal (como pode ser?), mais excêntrica (claro), mais cósmica ou quase santa que a do comum dos mortais. São poucos os arquitectos-estrelas que produzem argumentação audível ou visível; isso estragaria o facto de eles próprios serem uma espécie de ponto final à discussão.

Nesta Trienal evitou-se mostrar arquitectos-estrela, o que é salutar. Infelizmente, quando se põe em causa um argumento de peso, que ninguém põe em causa, que já nem é preciso expor, basta usar o nome – Koolhas, Siza, etc. – é preciso apresentar contra-argumentos muito convincentes – o que não acontece aqui. Evita-se o arquitecto-estrela fugindo ao assunto. Mostrando outras direcções mas não as argumentando. Apresentando-as e esperando que o público tire as suas próprias conclusões  sem lhe dar matéria-prima que chegue para isso.

E não seria muito difícil. A Trienal apresenta de facto pistas sobre a maneira como alguns arquitectos estão a enfrentar a crise em Portugal mas como se estivessem atrás de uma lente que as amplia mas também distorce. O evento comissariado por Mariana Pestana é talvez o melhor exemplo. Apresenta-se a ocupação de um palácio com máquinas de fazer fanzines, eventos de teatro, gastronomia e instalação. E tudo isto parece uma versão mais abstracta e estetizada da cultura no Porto, onde arquitectos, designers e artistas têm respondido à crise através de uma cultura de bagagem de mão – abrem restaurantes, galerias, publicam fanzines e organizam eventos e festivais. O oposto do arquitecto-estrela poderia ser isto, mas seria necessário argumentá-lo melhor.

1. Eu próprio comecei a discutir o assunto no Facebook, em resposta a um post do Frederico Duarte e, antes disso, a outro, da Carla Cardoso.

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Filed under: Crítica

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