The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Viver à fome

Sempre me irritei com a relativização do mal. Aquelas pessoas que argumentam que o Estado Novo não chegava bem a ser fascista. Ou que certo massacre de milhares de pessoas não chegava bem a ser um genocídio. E nesta crise ouvem-se absurdos semelhantes diariamente.

Ouvi outro dia alguém a defender que não, que a crise não era assim tão má porque não havia gente a morrer à fome. Não me contive e respondi que havia muita gente a viver à fome. O limiar da fome é como o limiar da pobreza. Uma zona dolorosa porque se tem vergonha de não viver melhor, claro, mas ainda tem que se gramar com bocas a envergonharem-nos por não vivermos suficiente mal.

 

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Filed under: Crítica

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Aproveitei uma gripe, seguida de uma saraivada de pedras nos rins, para adiantar textos em atraso e sobretudo o segundo número da monumentânea (que será o primeiro a sair). Está praticamente paginado. Chama-se “luz nova luz” e trata da residência artística onde participei neste Verão para assinalar os dez anos da Nova Aldeia da Luz.

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Abster-se

Gosto de ler os textos do comediante Russell Brand, em especial aquele onde não pedia desculpas sobre as piadas que fez sobre o passado Nazi da Hugo Boss numa ocasião patrocinada por essa marca de roupa. Não posso dizer o mesmo da entrevista onde defende que não vota porque não quer legitimar o sistema e que a sua própria autoridade para falar não vem desse sistema. Defendeu a posição com verve, mas não chega. Leia o resto deste artigo »

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Discussões e Profissões

Outro dia, um amigo artista espantava-se com a capacidade dos arquitectos para discutirem os seus assuntos em público, sempre intensa embora por vezes fechada a quem a ouça. Por comparação, dizia, os artistas só discutem assim entre amigos.

Penso que isso acontece por duas razões (na verdade duas modalidades da mesma razão). Em primeiro lugar, a arquitectura é uma disciplina por natureza argumentativa. Projectar edifícios é necessariamente discuti-los, com clientes, com legisladores, com vizinhos, etc. A segunda razão é que dentro da arquitectura todos os intervenientes são de um modo ou outro arquitectos, podem ser estrelas, estagiários, teóricos ou burocratas, mas une-os serem arquitectos. Nas artes plásticas, para além dos artistas, há os comissários, os críticos, os galeristas, os coleccionadores, os directores, que actuam profissionalmente dentro da arte com responsabilidades e em patamares muito distintos. Daí que não haja uma identidade comum a partir da qual se pode sustentar uma discussão.

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Meta-Impaciência

Ando com um passatempo que não recomendo: faço colecção de comentadores que perderam a paciência com o actual governo. Não por figura de retórica mas com uma certa quantidade de desespero. Identifico esse momento quando já quase nem usam de argumentos, quando já atiram com brusquidão as suas conclusões – que entretanto já não têm sequer aquela afectação de respeito que ainda se vai vendo. Lembro-me quando Pacheco Pereira sugeriu que, se Poiares Maduro queria melhorar  o nível da discussão política, se deveria simplesmente demitir. Daniel Oliveira também já perdeu a dele. Ontem foi António Guerreiro que concluiu, pela análise do modo como este Governo mente, que já vivemos num período totalitário. A falta de paciência no fundo é a consciência de saber que não vale a pena discutir com quem nos governa. E se a democracia é o governo através da discussão, passar esse limite é grave. E notem que estou a falar de gente habituada a argumentar em público. Pacheco, que me parece o mais adiantado nessa impaciência, publicou hoje um texto onde diz que já nem lhe apetece pensar em mais metáforas, filmes ou histórias, sobre a crise. Já escreve textos sobre essa falta de paciência. É uma meta-impaciência.

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O Sistema da Moda

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Quando entramos nesta crise, era certo que a esquerda não estava na moda, tanto a  jovem como a mais velha. Era bafienta, era a esquerda da cassete, que não mudava desde os anos sessenta. Diziam-nos que tudo isso estava para trás. Havia uma esquerda que era mais actual, que estava na moda, e com isso queria-se dizer que se devia parecer com a direita: Tony Blair, José Sócrates. Leia o resto deste artigo »

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Respostas Tardias

Quando estou de cama, gosto de ler banda desenhada antiga. Nos últimos dias tenho pegado nos volumes encadernados da revista Tintin, para ler as histórias mas também os artigos. Muitos tinham títulos como “É possível haver cinema de animação em Portugal?” ou “haver banda desenhada em Portugal?” Esta dúvida era um tique da época. A resposta dada pelo artigo podia resumir-se a um “quase que sim.” Leia o resto deste artigo »

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A Maré vai Mudando

Vi o Prós-Contras pela primeira vez em meses. O formato é o mesmo, embora com menos público. O último que tinha visto terminou com o economista Pedro Lains a discutir acesamente com alguém do eixo do governo teorias económicas complicadas de mais para ocasião. Leia o resto deste artigo »

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Escrever Bem

Cada vez me enerva mais o “escrever bem” – o estilo por defeito da prosa portuguesa actual. E cada vez mais me enerva que se diga de alguém que faz bons textos de opinião que “escreve bem”. Não é a qualidade da escrita que interessa – João Carlos Espada escreve bem, José Manuel Fernandes idem e até João Miguel Tavares. O problema reside apenas na sua argumentação. Leia o resto deste artigo »

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Monumentalizar o Poder

Não tenho muitas ilusões sobre o papel da arte profissional em Portugal e sobre o papel que nela desempenham artistas, comissários, críticos, professores e instituições. Como em qualquer outro lado, a função deste género de arte é monumentalizar o poder. Alguns dirão que Não, que a verdadeira arte põe em causa o poder ou então que se escapa totalmente a ele. E outros responderão, Mas não aprendeste isso numa escola, em museus. E a discussão será tão familiar e tão enrolada sobre si mesma como um Gif animado na internet. Leia o resto deste artigo »

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Poupava-me tempo

Tenho combatido a tentação para começar todos os textos com uma declaração de falta de tempo, porque é sempre verdade. Não tenho tempo. Pouca gente tem. É um recurso precioso. Sair de casa para ir ver uma exposição a um museu ocupa-me umas tantas horas, mais se for uma inauguração e houver jantar. Em geral, convenço ou sou convencido por amigos a ir. Vemos a exposição, bebemos qualquer coisa e actualizamos a conversa. Tudo isto para dizer que já nunca vou a uma exposição apenas para a ver – já só faço isso quando alguém me paga para escrever sobre ela. O tempo é tão curto que vou preferindo as ocasiões onde se pode fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. Ir ver um filme é um luxo, ficar duas ou três horas só a fazer uma tarefa. Leia o resto deste artigo »

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Monumentânea

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Ando um pouco mais desaparecido daqui do blogue não porque esteja a escrever menos – desde o começo do mês já devo ter passado as 10.000 palavras –, mas porque (entre outras coisas) ando a trabalhar num projecto antigo: um conjunto de quatro ou cinco publicações a que chamo monumentânea. Leia o resto deste artigo »

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Ética e comissariado

Ainda em relação ao comissariado, uma consideração breve: não há dinheiro para a cultura em Portugal, mas a cultura continua a ser feita, em grande medida recorrendo a trabalho voluntário ou a estágios; desviando o dinheiro das remunerações para a logística, etc. Tal como no resto da sociedade os cortes são feitos a partir de baixo. E isso exige uma responsabilidade ética por parte de quem gere este processo, que no caso das artes, design, arquitectura, e resto, tem sido o comissariado. No contexto actual não adianta o “participante” – artista, designer ou arquitecto – protestar, fazer greve ou até pedir outras condições, se as estruturas onde se espera que trabalhe não mudam. Neste momento, o comissário tem bastante mais agência do que o artista; é através de actos de comissariado que é activada a produção cultural. Se o comissário não toma uma posição política e ética não adianta muito que os artistas a tomem. Aliás, o maior receio é que a forma como a cultura se organiza hoje em dia, em torno do comissariado, do “curatorial”, seja em si mesma uma organização que naturaliza certas políticas e inviabiliza outras, reduzindo-as a “conteúdo”.

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Reduzidos ao absurdo

A crise de 2007 expôs a incompetência absoluta da doutrina económica neoliberal. A crise europeia expôs a falência absoluta da doutrina política neoliberal – ter um mercado comum e ter democracias já não é conciliável. A crise, agora, em 2013, a que é imposta em Portugal pelo Governo (e é mais do que confirmada pelo Orçamento de Estado para 2014) e a que é imposta ao mundo inteiro pelos Republicanos expôem apenas o fanatismo, despido de pretensões de verdade, de argumento político ou económico, até da humildade mais básica de não insistir em erros óbvios e provados.

Neste momento, aplicar o neoliberalismo é um exercício prático de redução ao absurdo.

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Autonomia, Comissariado e Trabalho

A verdade é que os artistas, para manter a autonomia, precisam de intermediários – entre outros, galeristas, críticos, designers, produtores e agora sobretudo curadores. Trata-se simplesmente de delegar aquilo que não se quer fazer em outras pessoas. Nem todo o artista gosta de angariar fundos, encontrar locais e recursos, de supervisionar a sua imagem pública ou até de escrever. Um artista não é muito diferente de qualquer outro trabalhador, que também, por talento ou temperamento, prefere fazer apenas uma coisa de cada vez, seja isso design, seja canalizações ou contabilidade. Especialização de tarefas, apenas isso.

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A Autenticidade do Punk ou (literalmente) o Sexo dos Anjos

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Li nesta sexta-feira uma crítica no New York Times ao novo filme “CBGB” sobre o bar com o mesmo nome, berço lendário do Punk, etc. Inevitavelmente, gastam-se dois ou três parágrafos a discutir a autencidade da história. O autor do artigo diz que é natural, estando os punks originais nos seus 60, uma altura da vida onde pensar no que se deixa para trás é importante.

Porém, para quem conhece velhos punks e – sobretudo – velhos groupies, sabe que, para estes últimos, discutir interminavelmente a autenticidade é um dos aspectos recorrentes do punk. Leia o resto deste artigo »

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Os Curadores Selvagens

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Ando com um projecto informal, na verdade um passatempo, a que chamo “Os Curadores Selvagens”: colecciono objectos e registos de curadoria outsider.

A ideia veio-me deste livro de Mário Gonçalves Viana. Leia o resto deste artigo »

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Ridículo

Aos meus olhos, a Baixa de Lisboa atingiu uma espécie de ponto crítico a partir do qual o turismo se tornou ridículo. Tive a mesma sensação em Barcelona a passear nas Ramblas, enquanto me esquivava dos grupos de excursionistas e das bicicletas de aluguer. Leia o resto deste artigo »

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Critérios

Ontem, enquanto ia para a escola na hora de ponta num autocarro apinhado deu-me para ler o regulamento dos STCP. Está quase no tecto e as colunas têm demasiados caracteres portanto não é fácil. Pensei em tirar uma foto com o telemóvel mas acabei por encontrar uma cópia aqui.

Mas não foi a má tipografia que me despertou a curiosidade foi o curioso sistema de coimas. Nem falo das situações onde não se percebe o que a multa penaliza – são várias. Reparei sobretudo nisto: se o motorista tiver que desalojar alguém que ocupe indevidamente os lugares reservados a deficientes, grávidas e portadores de crianças de colo, o infractor arrisca-se a pagar entre 249,40 e 1247,00 euros de multa. Mas quem for apanhado a transportar objectos perigosos ou armas de fogo carregadas, sem ser agente da autoridade, só paga 99,76 e 498,80 euros.

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Turismo

Desde que vim morar para Lisboa que a minha paciência para o turismo acabou. Não diminuiu. Não se esvaiu. Acabou. Viver na Sé, desde o primeiro dia, significa sair pelas traseiras para evitar as hordas de turistas que entopem o largo em frente á igreja e que não se desviam do caminho mesmo que isso seja fácil. Ou então desviam-se em direcções absurdas para tirarem uma foto no meio do trânsito. A meio da noite o largo dá-lhes vontade de cantar, às vezes acompanhados à guitarra ou mesmo tambor, e finalmente de polícia. À semana ou ao fim de semana — é indiferente.
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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
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Trabalho a Sério
Design & Desilusão
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Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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