The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ridículo

Aos meus olhos, a Baixa de Lisboa atingiu uma espécie de ponto crítico a partir do qual o turismo se tornou ridículo. Tive a mesma sensação em Barcelona a passear nas Ramblas, enquanto me esquivava dos grupos de excursionistas e das bicicletas de aluguer.

Contudo Lisboa tem um pormenor diferente: enquanto em Barcelona há uma uniformização visível do transporte de turistas e parece não haver muita diferença entre o seu uso por habitantes ou visitantes, em Lisboa há uma selva de alternativas que competem pela atenção do visitante em espanpanância e ridículo (ou ironia tótó, é a mesma coisa): tuc-tuc, triciclos motorizados amarelos e que parecem capacetes para Famel ampliados até caber um casal lá dentro, vespas, bicletas, segways. Não tarda vão começar a alugar armaduras do Homem de Ferro, completamente funcionais, com jactos repulsores e tudo. São coisas feias e estridentes, que degradam o ambiente e o património visual da cidade.

Ocorre-me, a propósito de Lisboa mas também de Barcelona, que nos mesmos sítios onde zumbe o turista empoleirado na sua trotinete cibernética, andava não há muito tempo gente como Luiz Pacheco, a viver muito abaixo do limiar de pobreza. Pela biografia dele fiquei a saber que na década de sessenta ainda se podia dormir numa “pensão da corda”, um sistema que pensava ter desaparecido na Inglaterra Vitoriana. Os “hóspedes” pagavam uma ou duas moedas para se sentarem em grupo num banco estreito de encontro a uma parede. O estalajadeiro amparava-lhes o peito passando-lhe por baixo dos braços uma corda que prendia nas duas extremidades do banco. Na manhã seguinte soltava-se a corda, acordando os clientes. Em Barcelona, Jean Genet dormia aos cinco e aos seis em pensões para mendigos, que agora se chamam hostels graças ao simples expediente de mudar a placa e instalar wi-fi na recepção. Fiquei num desses antros da última vez que lá estive.

Não há mais moralidade na pobreza, mas é toda uma história que se apaga substituída por sucedâneos de pacotilha: passar à frente do Limoeiro, a prisão favorita de Pacheco, a apressar o passo para não ficar preso num grupo de turistas, que vêm a Lisboa ver turismo e não uma cidade.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. João Enes diz:

    mário, os jactos não repulsam, propulsionam. repulsa é o que tu sentes pelos turistas.

  2. João Enes diz:

    p.s. – e já agora diz-se “espampanância” e não “espanpanância”.

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