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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Autonomia, Comissariado e Trabalho

A verdade é que os artistas, para manter a autonomia, precisam de intermediários – entre outros, galeristas, críticos, designers, produtores e agora sobretudo curadores. Trata-se simplesmente de delegar aquilo que não se quer fazer em outras pessoas. Nem todo o artista gosta de angariar fundos, encontrar locais e recursos, de supervisionar a sua imagem pública ou até de escrever. Um artista não é muito diferente de qualquer outro trabalhador, que também, por talento ou temperamento, prefere fazer apenas uma coisa de cada vez, seja isso design, seja canalizações ou contabilidade. Especialização de tarefas, apenas isso.

Actualmente, há uma pressão social e política para evitar a especialização. O empreendedorismo é o seu aspecto mais óbvio. Sob o pretexto de responsabilizar cada indivíduo o mais possível, impede-se que ele ou ela deleguem o máximo possível de tarefas ou responsabilidades – cada pessoa deve ser uma empresa individual, assegurando a sua saúde, a sua reforma, sem recorrer a unidades de maior dimensão, como outras empresas ou o Estado.

Nas artes, acontece precisamente o mesmo. Muito do discurso da interdisciplinaridade entendido como uma crítica da especialização assumia os mesmos sintomas do que promovia o empreendedorismo, e preparava o terreno para o discurso do comissariado contemporâneo. É significativo que ainda hajam comissários que defendem a curadoria como uma especialização dentro das hierarquias da arte, uma intermediação entre artistas e instituições (espaços, eventos, recursos, etc.) mas é uma posição que se vai tornando minoritária.

Pelo contrário, vão-se multiplicando as ocasiões onde o curador prefere apresentar uma arte sem artistas, um design sem designers ou uma arquitectura sem arquitectos. À primeira vista, até se compreende o mérito da intenção, contornar a fama, o status quo, etc. Na prática acaba por ser uma maneira de produzir eventos com menor orçamento, à custa de voluntariado, de pequenas firmas e iniciativas, ficando o pouco dinheiro reservado ao comissariado. Substitui-se uma estrutura de poder por outra, menos óbvia.

Acreditar que se pode combater isto, promovendo o artista, o designer ou o arquitecto acima do comissário, é ingénuo. Repare-se: no que toca a comissariar arte, design ou arquitetura não é precisa qualquer uma destas pessoas. Ou pelo menos nem precisam de estar vivas: basta apenas o trabalho sob a forma de acervo. E quando se quer algo mais contemporâneo acabam por não ser os próprios artistas a ser convocados quando se fala da relação com o público, com outras áreas, etc. Comissariar espaços e eventos onde isso aconteça não é mais importante do que estar sempre a promover a carreira de homens, brancos, ocidentais, etc.

E é assim que muito do discurso político, feminista, activista, é usado alegremente para promover megaeventos sustentados por trabalho escravo estagiário.

A solução? Simplesmente, olhar um pouco para o que acontece na política e na sociedade em geral. Neste momento, a questão mais grave que não substitui mas informa ou suporta outras questões cruciais como a raça ou o género é a igualdade social. Reclamar uma distribuição justa de rendimentos, criticando situações onde o dinheiro fica no topo. Encontrar e reclamar formas de organização e de intermediação que o impeçam.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] em relação ao comissariado, uma consideração breve: não há dinheiro para a cultura em Portugal, mas a cultura continua a […]

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