The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Poupava-me tempo

Tenho combatido a tentação para começar todos os textos com uma declaração de falta de tempo, porque é sempre verdade. Não tenho tempo. Pouca gente tem. É um recurso precioso. Sair de casa para ir ver uma exposição a um museu ocupa-me umas tantas horas, mais se for uma inauguração e houver jantar. Em geral, convenço ou sou convencido por amigos a ir. Vemos a exposição, bebemos qualquer coisa e actualizamos a conversa. Tudo isto para dizer que já nunca vou a uma exposição apenas para a ver – já só faço isso quando alguém me paga para escrever sobre ela. O tempo é tão curto que vou preferindo as ocasiões onde se pode fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. Ir ver um filme é um luxo, ficar duas ou três horas só a fazer uma tarefa.

Tudo isto para dizer que por falta de disponibilidade, prefiro ver arte (cultura) que mais do que me interesse, me seja útil. Não é particularmente difícil produzir situações esteticamente impressionantes – há milhares de criadores a fazê-lo diariamente; a Joana Vasconcelos fá-lo. Mas não se pode ver tudo. Logo por mais mérito abstracto que tenham certas obras ou experiências, para mim vê-las é perder tempo que quase não tenho.

Não me interessam muito obras que “problematizam o limiar entre exterior ou interior” ou que apresentam o “automatismo decidido do gesto” ou que apresentam enfiadas industriais de rabiscos geométricos produzidos durante anos. Respeito-as e quem as aprecia, mas não tenho tempo.

Vivo em Portugal, um dos países da crise, como o ouvi ontem ser descrito numa reportagem da Al-Jazeera, onde o dinheiro e o tempo são um recurso escasso. Boa parte da cultura e sobretudo da arte que vou vendo ser promovida em jornais e revistas não o reflecte. Quando muito pode-se argumentar que é arte feita nos seus próprios termos, desafiando sobranceiramente a crise, continuando a produzir o que sempre produziu.

Mas é um argumento que não me convence: para sustentar uma autonomia da arte é preciso tempo e dinheiro, tanto para o artista como para o seu público. E isso não existe. É um luxo.

Para ter arte, é preciso lutar desunhadamente pelas condições mínimas para a ter. Nem digo através da própria arte, mas intervindo politicamente como cidadão – é o mínimo que se pode exigir. Mas mesmo esta intervenção cívica não me chega. Prefiro ocupar o meu tempo a ver cultura que me ajude a lidar com isto tudo. Cultura que assumisse uma postura mais imediatamente política. Poupava-me tempo.

Anúncios

Filed under: Crítica

2 Responses

  1. ines moreira diz:

    Mário, podes escrever um projecto, reunir autores, fundos, e concretizá-lo. É da urgência que descreves que nascem os projectos mais interessantes. Mãos na massa.

  2. Inês, eu já faço o que me interessa, que é escrever sobre os projecto que me interessam. Tenho todos os fundos e apoios que preciso para o fazer.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: