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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Monumentalizar o Poder

Não tenho muitas ilusões sobre o papel da arte profissional em Portugal e sobre o papel que nela desempenham artistas, comissários, críticos, professores e instituições. Como em qualquer outro lado, a função deste género de arte é monumentalizar o poder. Alguns dirão que Não, que a verdadeira arte põe em causa o poder ou então que se escapa totalmente a ele. E outros responderão, Mas não aprendeste isso numa escola, em museus. E a discussão será tão familiar e tão enrolada sobre si mesma como um Gif animado na internet.
Quando se fala de Poder assume-se necessariamente que se fala do Estado ou do Mercado ou da Religião, coisas que exercem uma pressão sobre a arte a partir de fora. Prefiro o Poder como Michel Foucault o via, como algo que não tem exterior: só existe quando é exercido, quando alguém toma parte dele. Não interessa se activa, se passivamente. O Poder é uma interacção de toda a gente envolvida.

Idealmente, a arte devia monumentalizar um Poder democrático e isso ainda se reflecte no modo como se promove, através do ensino das artes, uma ênfase na representação de minorias, género, temas. Actualmente, há uma viragem e a arte (e o seu ensino e a sua divulgação) tem-se tornado cada vez mais burocrática – sobretudo porque conseguir apoios se tornou, dentro do Estado Neoliberal, numa tarefa fiscalizada ao extremo. Sob o pretexto de evitar a subsidiodependência, os sucessivos governos tornaram o acto de pedir um subsídio numa ocupação bizantina e a tempo inteiro. É possível observar o mesmo em relação ao desemprego, que já não é de todo algo inerte, mas um torvelinho de apresentações constantes no centro de emprego, de formações, que mesmo assim não chegam e ainda é preciso limpar matas ou esfregar o chão de um banco.

Esta fiscalização constante da arte não é exterior a ela, mas obriga-a a definir a sua identidade enquanto coisa vigiada, autorizada. O mesmo se passa em relação à crítica, ao comissariado e às instituições (museus, feiras, bienais, galerias, etc.)

Naturalmente, tudo isto reflecte-se numa experiência estética onde a arte se resume cada vez mais a um conteúdo, dentro de um estrutura de serviços que a transcende e que também pode incluir sem grande esforço a arquitectura, a música, a literatura, a ciência. Dizer que esta estrutura aspira à arte ou à autoria é um erro – recorrente –, porque a sua identidade depende de ser uma experiência que transcende a arte enquanto especialização. Mas é sem dúvida uma estética, entendida aqui como uma certa maneira de definir socialmente a experiência perceptiva, argumentando-a e prescrevendo-a.

 

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Filed under: Crítica

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