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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não esquecer a austeridade

tumblr_ksxmq2yaLu1qz6f9yo1_r1_500Uma bela reflexão de Rui Tavares no Público de hoje que, como ele lembra, sai no dia em que se comemora o Armistício. Trata de como as reparações que foram exigidas no fim da I Grande Guerra colocaram uma grande pressão sobre a Alemanha que, vinte anos depois, acabaria por levar à II Grande Guerra. Lembra como essa pressão marcou o jovem economista John Maynard Keynes que na época avisou para as consequências dessas políticas. Mais tarde, “no fim da II Guerra Mundial, Keynes lutou estrenuamente para que os países devedores pudessem suspender pagamentos a países que tenham excedentes. Os primeiros teriam um alívio num momento em que os outros não precisavam imediatamente do dinheiro. Uma medida simples que funcionaria a contento de todos, e que ainda hoje permitiria a um país como Portugal respirar fundo para poder recuperar sem, no fundo, prejudicar ninguém.”

Apenas um detalhe: Tavares refere que as “exigências à Alemanha impossibilitaram o Estado social de direito […]; em vez disso veio a inflação galopante, o desemprego e o nazismo.” Nesta altura do campeonato, seria mais correcto dizer que veio a inflação galopante, sim, mas também a austeridade, a deflação, o desemprego e o Nazismo. A hiperinflação ocorreu durante o começo da década de vinte. Hitler só subiu ao poder dez anos depois, em 1933. Como lembra Mark Blyth, em Austerity: The History of a Dangerous Idea, não é plausível que dois eventos tão distantes no tempo sejam consequências directas um do outro – sobretudo no campo da política, onde se tende a reagir eleitoralmente castigando os governos imediatamente anteriores.

Antes de Hitler, houve o Governo de Heinrich Brüning. Segundo a Enciclopédia Britannica:

“His policies, formed in response to the onset of the Great Depression, involved increased taxation, reduced government expenditure, high tariffs on foreign agricultural products, cutbacks in salaries and unemployment insurance benefits, and continued payment of the reparations imposed on Germany by the Treaty of Versailles (1919). Brüning’s austerity measures prevented any renewal of inflation, but they also paralyzed the German economy and resulted in skyrocketing unemployment and a drastic fall in German workers’ standard of living.”

Ou seja, a subida de Hitler aconteceu como uma reacção directa a uma depressão que se tentou curar com medidas de austeridade muito semelhantes às que os países do Sul da Europa estão a sofrer. E ainda vale a pena lembrar que Brüning acelerou a viragem totalitária do país ao governar ignorando o parlamento.

(Já agora, Blyth também lembra que, no Japão da época, foram políticas de austeridade semelhantes – que trouxeram desemprego e assassinatos políticos – que levaram ao governo militarista que participou na II Grande Guerra)

Não duvido que a inflação alemã fosse apresentada pelos próprios Nazis como um motivo para a sua subida ao poder. Mas repare-se que, mesmo agora, é usada também como um pretexto para não autorizar uma inflação mais favorável aos países do Sul. Enquanto a austeridade, apesar de destrutiva, é vista como virtuosa, a inflação é quase sempre vista como uma degradação. Simplificando, é um ponto de vista que agrada sobretudo ao credor, que fica favorecido se o valor que conta receber não diminuir com a inflação. Como a história tende a ser escrita pelos mais poderosos, é natural que a inflação seja mal vista.

Há alturas, claro, em que a inflação é destrutiva, como aconteceu durante os anos 70 mas, neste momento, está a ser usada com sucesso pelo Japão e pelos Estados Unidos. Naturalmente por cá, quem se opõe mais à inflação são os apoiantes do governo. Ainda há uma ou duas semanas, Rui Ramos gabava o modo como a austeridade impedia a inflação e as vantagens de pertencer a um Euro forte – o que é no mínimo estranho se estamos a tentar viver de exportações. E os receios de uma hiperinflação ainda são mais ridículos quando a inflação anda próxima de ser negativa.

Tudo isto para dizer que vale a pena lembrar, sempre que possível, que a austeridade não é uma inovação. Já foi aplicada no passado com consequências muito más.

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Filed under: Crítica

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