The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Paradoxos e Parvoeiras.

João Miguel Tavares enrola-se todo a tentar demonstrar que o termo neoliberal não passa de um insulto que a esquerda despeja em cima da direita sem perceber as nuances. Curiosamente, termina com um apelo:

“Houvesse mais vontade de discutir estas coisas e menos vontade de baralhar, e não seria difícil evitar pontapear pessoas moderadas para um inexistente radicalismo, nem impedir que uma palavra tão progressista e de esquerda como ‘liberal’ se transformasse num insulto no Portugal do século XXI.”

Ao longo do artigo, confunde liberal com neoliberal, liberal e conservador com esquerda e direita (respectivamente), e neoliberal com neoconservador.

Nada isto é paradoxo nenhum, como ele insiste. Nem sempre uma designação é descritiva, portanto convém olhar para as características, para a história e para o contexto do objecto que designa. Por exemplo, o termo “liberal” nos países anglo-saxónicos tem uma conotação diferente da nossa. Por cá, lembra aos historiadores o liberalismo do século XIX. Por lá, é uma descrição abrangente do que se chamaria por aqui a esquerda. E, dentro do vocabulário económico, tem ainda outros significados. A designação neoliberal é originalmente o nome de uma escola de pensamento que defende o Estado mínimo (privatização), a desregulação dos mercados e a livre circulação de capitais. O neoconservadorismo é uma tendência política que defende posições económicas semelhantes, somando-lhes uma postura agressiva na política internacional e na legislação interna. Um dicionário de política actualizado ou, à falta de melhor, o google resolviam a questão.

E depois ainda se sai com algumas falácias comuns:

“não faz sentido acusar o actual Governo de ser um fanático do Estado mínimo quando aquilo que conseguiu até hoje foi aumentar o peso do Estado nas nossas vidas através dos impostos e do descontrolo da dívida”

Na verdade, o que o Governo fez foi demonstrar que políticas de austeridade em tempo de recessão contraem a economia, fazendo aumentar a dívida e obrigando a mais impostos. Tavares diz que o Governo não é um fanático do Estado mínimo (e portanto não é neoliberal) porque, se fosse, as suas políticas davam certo. Pode dar-se o caso da aplicação ser escrupulosa (o Governo é elogiado por isso internacionalmente), mas a modelo aplicado ser em si mesmo mau.

Mas a melhor é esta:

“Neste redemoinho de intermináveis paradoxos, dá-se o caso de muitos daqueles que são acusados de neoliberais estarem a querer menos Estado exactamente para afastar os privilegiados que enxameiam o regime há séculos, enquanto a esquerda revoltada com o grande capital não percebe que é precisamente a dimensão gargantuesca do Estado que alimenta – como sempre alimentou – quem melhor se move nos corredores do poder.”

A melhor estratégia é portanto atacar o paciente e deixar a doença em paz. Porque é precisamente a boa saúde do doente que alimenta a doença. Eliminando a saúde, mata-se a doença à fome. E desmantelar o Estado para o vender ao desbarato não alimenta os tais privilegiados? Se calhar, em vez de se privatizar a energia, as escolas, os hospitais, os correios e o resto, devia-se simplesmente eliminar tudo isto. Acabava-se de uma vez por todas com tudo o que alimenta a corrupção e o clientelismo e podíamos finalmente ser um país desenvolvido.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: