The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Holocausto Gurmê

Ontem manifestei aqui o meu repúdio e perplexidade pelo projecto, entretanto apagado, de um cofre de luxo inspirado nas emoções de judeus enquanto eram arrebanhados pelos Nazis para serem levados para campos de extermínio. Se é possível tirar alguma lição desta estupidez é que se tornou demasiado fácil ser empreendedor à custa dos outros. Já se tornou habitual ver design de luxo, eventos e objectos de elevado orçamento sustentados por centenas de pessoas que trabalham de graça meses a fio. Ainda choca que se façam versões gurmê do Holocausto; já quase não choca que se produzam versões gurmê de pobreza e de austeridade menos óbvias.

Inovar é fácil. Basta conseguir fazer algo que mais ninguém se lembra de fazer. Porque não se faz isso mais vezes? Porque se vive em sociedade. Se a inovação faz diferença, é porque vai contra hábitos e convenções. Isso pode ser bom ou pode ser mau. Ou, mais realista, pode ter vantagens e inconvenientes para pessoas distintas. Há um século não se concebia que uma mulher votasse, por exemplo. Consegui-lo foi uma inovação.

O nosso governo adora inovar. E, como seria de esperar, todas as suas inovações vão contra hábitos e convenções: aumentar o horário semanal de trabalho; considerar que os direitos de uma grande empresa ou de um banco são invioláveis mas considerar insustentáveis os direitos de um reformado; subordinar a aplicação da Constituição a ideias económicas bastante discutíveis; privatizar seviços básicos.

A inovação não é boa por si só. Tal como apegar-se a hábitos e convenções não é bom por si só. Muitos hábitos e convenções dos últimos anos de democracia garantem a possibilidade de muitas pessoas participarem mais da sociedade: gente de origens humildes, com vidas, crenças e hábitos minoritários, mulheres, homossexuais, etc. Quando se inova em relação aos chamados direitos adquiridos, está-se a pôr em causa essa possibilidade.

A tolerância pode ser praticada mecanicamente, por hábito, sem a perceber verdadeiramente. A tolerância pode ser um preconceito. Pode ser conservadora. Mas é preferível ser tolerante por defeito  do que ser deliberadamente iconoclasta, quando aquilo que se está a destruir são as convenções de uma sociedade inclusiva.

O que é trágico no caso do cofre de luxo é o modo como se considera uma homenagem a conversão em mobiliário de luxo de momentos de um terror que (felizmente) a maioria de nós nunca andarão perto sequer de experimentar. É inovador. Pouca gente se lembraria disso. Ainda bem.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Valhanosdeus diz:

    Boca do Lobo aka Menina Design. Tudo explicado.

  2. […] nativo. Pode-se trazer uma nova perspectiva. Ou simplesmente ser um pato bravo de todo o tamanho, a fazer mobiliário inspirado nas emoções de judeus enquanto eram perseguidos pelos nazis, por […]

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