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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Call Center Gurmê

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Há uma década, o design mais bem sucedido em Portugal era feito para o Estado, para ministérios, museus, câmaras municipais, grandes eventos. Do design português, podia-se dizer, sem ironia nenhuma, que não chegava bem a ser função pública mas estava lá quase.

Nos primeiros tempos da crise, ainda se apanhava designers a queixarem-se do Estado despesista e dos tachos enquanto reclamavam mais concursos públicos.

Agora, esse mercado fechou, não porque o Estado gaste menos, mas porque o seu acesso subiu de nível, de ex-ministro para cima, e, que eu saiba, nunca houve ministros designers.

Os ex-designers de Estado começaram a dedicar-se ao mercado externo. O design tornou-se num serviço de exportação. Graças aos computadores e ao skype, tornou-se fácil. Se a raia miúda do design trabalha em call centers, o próprio design português foi-se tornando ele mesmo num call center. Um call center gurmê mas sem dúvida um call center.

Há vantagens, claro, mas também se percebem os riscos. Quando se trabalha às cegas, para um contexto que não se conhece bem, não é difícil ser ousado e inovador. Não se está tão preso por hábitos e convenções como um nativo. Pode-se trazer uma nova perspectiva. Ou simplesmente ser um pato bravo de todo o tamanho, a fazer mobiliário inspirado nas emoções de judeus enquanto eram perseguidos pelos nazis, por exemplo.

E isso não acontece apenas quando se trabalha para o mercado externo mas aqui mesmo, para o mercado gurmê ou de luxo – seja o público alvo o neo-rico ou o turista (o turismo é uma indústria de exportação self-service).

Quando este século começou, “design” era uma palavra que irritava toda a gente, até os próprios designers. O crítico Hal Foster resumiu bem a irritação: dos genes aos jeans, tudo podia ser design. Mais ou menos por essa altura, o design tornou-se, aqui em Portugal, num neologismo ainda mais vago do que já era. Se no inglês sempre foi um verbo e um substantivo, por aqui martelou-se o substantivo (nunca foi um verbo) até se tornar num adjectivo ou pelo menos num sufixo. Numa espécie de declinação. Óculos design, malas design. Isto ou aquilo design.

No fundo, não interessa, porque já passou.

Agora, pouco mais de dez anos depois, é isto ou aquilo gurmê. O gurmê venceu o design. Boa parte do próprio design é, neste momento, gurmê. Desde os jeans aos genes, tudo pode ser gurmê.

Mais ainda que o design, “gurmê” é um adjectivo semi-irónico. Quando algo é irónico dá a entender o oposto daquilo que é. Quando algo é semi-irónico dá a entender tanto o que realmente é como o que não é, nem pode ser.¹ O gurmê dá a entender que é algo luxuoso mas, ao mesmo tempo, reconhece que não o é, nem pode ser.

Como desígnio nacional é uma bandeira feita às cegas e usada por quem não se importa muito com pormenores.

1. Em outras ocasiões, já lhe chamei treta.

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Filed under: Crítica

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