The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Pobreza Como Estilo

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No Estilo Manuelino, celebravam-se, através da decoração, as coisas que faziam de Portugal um país rico, o mar, os navios o cordame. Agora, pelas mesmas razões, celebra-se a pobreza e a exclusão. Fazem-se sardinhas e bifanas gourmet. Um cofre de luxo inspirado nas emoções de Judeus quando eram perseguidos por Nazis. Manda-se um cacilheiro para a Bienal de Veneza. Brinca-se aos pobrezinhos na Comporta. Toda uma arte e um design que celebram a brutal transferência de recursos das classes mais baixas para as mais altas.

É a tendência do ano que passou e dos anos que estão para vir. Como se pode ver pela lista acima, a transferência não é apenas económica mas estética. Não apenas os rendimentos mas o próprio gosto.

O novo rico é o pobre em versão gourmet.

A intenção mais superficial é celebrar uma espécie de contrato social entre os mais pobres e os mais ricos deixando de fora a classe média. A piscadela de olho entre classes (Vê Lá Até Gostamos das Mesmas Coisas) é graxista. Lembra como se cortou em todo o lado menos aos mais pobres – como não se cansam de lembrar o Governo e o seu coro de comentadores. A este nível é demagogia clara. O bónus é moer-se um pouco mais a cabeça da classe média qualificada que, ao dizer mal desta pessegada, ainda passa por elitista no preciso momento em que é varrida da face da terra.

Mas não se pense que com isto se está apenas a celebrar a pobreza. Mais do que isso, o que está a ser celebrado é uma autoridade moral para intervir sobre ela enquanto objecto. Daí que não interesse nada a autenticidade destas imagens sobre a pobreza, sofrimento ou perseguição política, religiosa ou social. São caricaturas. Celebram a possibilidade de uma classe produzir e administrar a imagem de outra. De tomar posse dela.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. neste:

    http://obeissancemorte.wordpress.com/2013/11/28/e-se-fossem-brincar-aos-pobrezinhos-para-a-puta-que-vos-pariu/

    é a pobreza como exotismo!

    há já bastante tempo que se fazem “safaris” às favelas e bairros de lata para encher o álbum de fotos de férias! não faltará muito para que os jardins zoológicos tenham uma nova espécie: o homo pauperius! para aqueles turistas que querem tirar fotos tranquilamente sem a chatice de ter que percorrer o habitat natural “sem conforto”.

  2. […] texto anterior cobriu-se o que poderíamos apelidar de POPulismo, o equivalente estético da transferência de […]

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