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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Alternativas nas Artes

arara

Num texto anterior cobriu-se o que poderíamos apelidar de POPulismo, o equivalente estético da transferência de recursos entre as classes mais baixas e as classes mais altas. Vimos que essa transferência é, também aqui, no campo da arte, assimétrica. Trata-se de ditar, a partir de cima, a identidade e os valores dos mais pobres com o pretexto de os enaltecer. É uma arte e design grosseira e ofensiva de um modo que não é acidental. Assemelha-se às intervenções de Jonet, sobre o que devem ou não consumir os mais pobres, ou às tiradas de Fernando Ulrich ou António Borges, e por uma boa razão: ambas são manifestações de uma filosofia base comum.

Mas do lado das artes mais sérias, que se riem disto tudo, também há maneiras de monumentalizar o status quo, mais subtis e por isso mesmo mais eficazes. Falo, como é óbvio, da viragem curatorial das artes. Qualquer artista ou agente cultural é neste momento também, por defeito e por treino, um comissário. Ou seja, também nas artes qualquer trabalhador é também um empreendedor. O borbulhar constante de pequenos espaços, eventos, que aparecem e desaparecem, demonstra-o. Também aqui, nas artes, onde se acredita, erradamente, que há uma resistência ao neoliberalismo, se aplica alegremente a sua premissa base, de uma organização social centrada no modelo da empresa, onde mesmo a identidade individual lhe deve obedecer.

Isso acontece porque o sistema assim o incentiva: é mais comum, por exemplo, encontrar apoios com projectos que demonstrem empreendedorismo do que apoios directos a artistas – pela sua relativa raridade, estes últimos têm um carácter de consagração mas (lá está) são cada vez mais atribuídos por júris de comissários.

O próprio ensino também o promove, sobretudo ao nível dos mestrados e doutoramentos. O modelo científico aplicado às artes implica uma distância entre o investigador e o objecto que investiga, o que explica certo escândalo quando artistas dissertam sobre a sua própria obra, a apresentam como tese, ou comissariam o seu próprio trabalho. Ao mais alto nível do ensino das artes, favorece-se mais a gestão de objectos do que a sua produção.

Provavelmente, o caminho a seguir será o do escândalo, de tentar produzir deliberadamente situações que ponham o sistema a rezingar. Recusar a própria ideia de uma arte que separe e pedestalize a gestão. Exemplos: para já gosto de coisas como a Arara, no Porto, que se concentra mais em produzir objectos do que em geri-los.

Bom, tenho que continuar a arrumar a casa. Até à próxima.

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Filed under: Crítica

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