The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Beleza, Política, Censura

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Ao contrário do que se possa pensar, não é muito difícil produzir arte bonita – incluo aqui (como é óbvio) arte, cinema, design, fotografia, literatura, etc. Para o demonstrar, basta ver como certo objecto é às vezes descrito como sendo “apenas decorativo”, como se deprecia outro dizendo que “é bonito”. Não me vou alongar sobre estes assuntos, importa apenas sublinhar que a beleza é comum, quotidiana, corriqueira. Dentro da sua abundância, pode-se escolher a beleza que mais nos convém, a que se aproxima mais às nossas necessidades.

Mas não a escolhemos apenas por um imperativo físico, porque agrada ao nosso corpo, mas porque de algum modo fomos persuadidos a preferi-la – através de publicidade, legitimação institucional ou argumentação amadora (de amigos) ou profissional (da crítica ou do comissariado). Gostar de algo é um acto social. Faz-se sempre em relação a outros gostos.

Se virmos bem, esta argumentação não é uma moldura à volta da obra mas acaba por ser uma experiência inseparável dela. Podemos dizer, ao apreciar à obra, que não nos queremos distrair com tudo aquilo que a rodeia, mas o sítio onde começa a obra é uma escolha nossa, que pode ou não coincidir com a escolha do autor, do editor, do comissário, etc.

Por tudo isto, não acho que se possa separar a política da estética, antes pelo contrário. Dizer que a arte exclui necessariamente a política só por si demonstra, se essa exclusão for aceite como premissa, como a arte pode ser um mecanismo de silêncio e até de censura, mesmo que apenas auto-infligida. Dizia Chris Marker: “Censorship is not the mutilation of the show, it is the show. The code is the message. It points to the absolute by hiding it. That’s what religions have always done.” As religiões, mas também as artes, claro.

Na fotografia actual percebe-se bem a intenção de fazer uma arte que não exclua: os enquadramentos tentam ser os do negativo. Grandes paisagens neutras, amplas. Mas o que fica de fora aqui, o que se torna invisível, escorregadio, é a opinião do fotógrafo. Não é difícil apresentar imagens cruas, a que se chama, sem precisão, objectivas, o que é difícil é representar essa coisa que habita nas bordas, o seu enquadramento, a sua discussão, a sua censura.

(A fotografia que ilustra este texto é do americano Clayton Cubbitt, que começou a censurar decorativamente as suas próprias imagens para que não fossem apagadas dos sites onde as apresenta.)

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Filed under: Crítica

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