The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Rigor Mortis

Já o disse várias vezes: não concordo com o modelo actual de investigação que é imposto em áreas como as artes e o design. Sempre defendi mais teoria e mais crítica. Porém, o que temos é burocracia, produzida em massa sobretudo para cumprir metas de avaliação.

Neste sistema, tudo se avalia, duramente, constantemente, cada vez mais. A avaliação já não é um processo que funciona em contraponto com outra coisa qualquer – aprender, experimentar, etc. A avaliação é o sistema, é o conteúdo. O resto é pretexto ou desvio.

Não passa de neoliberalismo: num modelo social assente na concorrência total e permanente entre entidades empresariais (sejam elas pessoas ou empresas), e onde o consumidor final quase não interessa, o que fica é uma hipertrofia da avaliação, do rating – algo produzido não em nome de quem usufrui do sistema mas de quem nele pode ou não investir. Daí que a livre concorrência de mercado se traduza para o cidadão comum em controle atrás de controle.

Uma tese de doutoramento, que já foi uma das poucas ocasiões onde se podia produzir um trabalho de fôlego, agora reduz-se ao somatório de pequenos e constantes actos de avaliação, de relatório, de ponto da situação. Dizem-nos que é em nome do rigor e que ajuda os alunos a manterem o ritmo, caso contrário não terminariam a tempo, nos dois anos prescritos – e aqui está a verdadeira razão: manter a linha de montagem a funcionar sem engasgos. Cuspir mais uns números para justificar que a investigação ainda é um bom investimento.

Ontem enviaram-me a listagem dos candidatos às bolsas do FCT para as áreas de Arquitectura, Urbanismo Design. Apenas doze bolsas e, segundo percebi (gostaria de o confirmar), apenas uma para Design. Não surpreende dentro da razia quotidiana, mas ainda assim consegue chocar. Demonstra que toda esta avaliação não serve para nada. A investigação nunca há-de ser um bom investimento no sentido usado por quem nos governa.

Não adianta participar na charada com a esperança de que esta estupidez um dia passe.

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Filed under: Crítica

6 Responses

  1. ines moreira diz:

    podes divulgar a lista?
    gostava de conhecer.
    i

    • Foi-me mandada por um orientando a nível privado. Acho que não devo divulgá-la. Tem os nomes de todos os candidatos e respectivas pontuações.

      • ines moreira diz:

        Ok, Compreendo.
        estes cortes preocupam-me na questão das investigações menos disciplinares, isto é, mais experimentais. porque são vistas como das franjas, são mais fáceis de cortar.
        mas a seu tempo verei que projectos foram seleccionados.

        viste o pires de lima? … 8(

      • Vi sim. Às bolsas para idiotas como ele chamam-se “pastas ministeriais”; às de pós-graduação chamam-se “contas bancárias obscenas”.

      • ines moreira diz:

        não deixo de me surpreender, cada dia que passa é mais um balde de lama. qualquer dia instauram as bolsas públicas para pós-graduação de verão das Jotas. ja faltou menos.

  2. “(…)agora reduz-se ao somatório de pequenos e constantes actos de avaliação, de relatório, de ponto da situação. Dizem-nos que é em nome do rigor e que ajuda os alunos a manterem o ritmo, caso contrário não terminariam a tempo, nos dois anos prescritos – e aqui está a verdadeira razão: manter a linha de montagem a funcionar sem engasgos.(…)”

    uma justificação das comissões cientificas para eles apresentarem trabalho à custa do trabalho desnecessário inconsequente e contraproducente dos alunos.

    o meu relatório de progresso no final do meu 1º ano de desenvolvimento da tese, (setembro 2012) foi simplesmente pura perda de tempo em todos os sentidos:
    1º, ter que o apresentar no inicio de setembro, acabou por me ocupar todo o agosto (felizmente de férias) mas que tinha programado para poder dedicar muito mais tempo ao próprio desenvolvimento da tese.
    assim não só tive que estar um mês inteiro a criar um relatório, que ninguém leu, ninguém criticou, ninguém propôs nada, para além de ter que fazer uma apresentação pública do mesmo, tendo que estar a falar para uma audiência de colegas de turma que só estavam à interessados em chegar à sua vez para apresentar, como quem está na fila para ser atendido no talho.
    2º, porque todo o stress e burocracia para entrega do material (3, 4 ou 5 exemplares impressos, 3 , 4 ou 5 cds com pdfs, anexos imagens, textos publicados, etc… 3, 4 ou 5 papeis assinados como se fez a entrega no expediente com as devidas autorizações assinadas e confirmadas do orientador, do aluno, da comissão cientifica, etc… prazos que obrigam a quem trabalha, ter que faltar a meio da semana para ter que vir de bragança ao porto de propósito para fazer uma apresentação de 12 minutos, com a agravante de que, ao ter que faltar ao serviço docente ter que repor mais tarde as horas em falta com a agravante do acumular das horas nas semanas seguintes com trabalho e disponibilidade extra dos alunos, de salas de materiais, etc…

    enfim, pura perda de tempo.

    estou em programa doutoral desde fevereiro de 2010 e a desenvolver a tese desde outubro de 2011, estou agora no 3º ano de desenvolvimento e não tenho a certeza que consiga acaba-la neste ano e todas as semanas dedico na minha agenda trabalho para ela.
    uma vez um professor (com um ar bastante chateado e ameaçador) perguntou na cara da turma da 1ª edição do DAD da FBAUP, “mas vocês pensam que vão fazer uma tese ao fim de semana???” – (uma pergunta feita numa aula da parte curricular que funcionavam exactamente ao fim de semana) – estive para responder que sim, porque quem trabalha e não tem bolsa é exactamente o que faz. sacrificando assim toda a possibilidade de, na melhor das hipóteses durante estes 2 anos, conseguir estar com a sua família e na realidade viver. esse próprio professor que, se não me engano esteve cerca de 6 anos a desenvolver a sua tese, (e talvez mesmo a trabalhar e com bolsa ao mesmo tempo) ainda numa altura em que nem sequer havia ano curricular.

    por vezes penso que se o que interessa é o título, já devia ter acabado o trabalho com o serviço mínimo garantido.
    mas, infelizmente, quem acha que um doutoramento ainda pode ser um trabalho dignificante, para quem quer seguir carreira enquanto docente do ensino superior e que a sua excelência consiga reflectir na forma como os seus conhecimentos são usados em favor de quem necessita deles (os alunos), então é eticamente e moralmente impossível.

    a humanidade de um trabalho doutoral, não deverá nunca ser confundida com perversidade bur(r)ocratica das estatísticas. mas infelizmente é o que tem vindo a acontecer.

    vou lutando.

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