The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Voltar a Casa dos Filhos

Voltando ao assunto de ontem, as artes no Porto. Dizia eu que me chateava uma certa amnésia em relação à última década: foi uma década frustrante mas não um deserto. As artes no Porto, de alto a baixo, foram-se adaptando a uma política de austeridade municipal, que antecipava a que está nos últimos anos a ser aplicada ao país. Agora, com Rui Moreira – e Paulo Cunha e Silva – há quem ache que as coisas vão mudar. Isso é bem palpável  no artigo do Ípsilon.

Ao lê-lo, fica-se com a ideia que esta exposição, tal como outras antes dela, procura marcar presença dentro desta nova ordem, talvez mais favorável às artes.

Calculo que apareçam mais espaços e iniciativas com as mesmas intenções. A sua característica mais interessante será a de se enunciarem de modo mais ou menos explícito como regressos, onde protagonistas da cena do Porto pré-2007 (ocasião da desagregação de vários colectivos e iniciativas) vêm reclamar um lugar dentro de uma possível nova cena do Porto, usando como fonte de legitimação (de modo mais ou menos explícito) a sua presença na versão anterior.

É um regresso acima de tudo simbólico, porque a maioria destas pessoas não deixaram de trabalhar no Porto, apenas se distanciaram de uma cena que desapareceu, substituída por carreiras individuais (significativamente, nesta exposição apresentam-se artistas isolados de colectivos a que pertenciam e que entretanto desapareceram). A ideia do regresso serve sobretudo para dar a entender uma partida, um distanciamento da ordem anterior. Distanciamento de Rui Rio. Disponibilidade para outras andanças. Rui Moreira.

A ênfase na história, no passado, marca também uma identidade, talvez uma autoridade, dentro de um ambiente onde várias gerações convivem. A exposição do Maus Hábitos é um bom exemplo: comissário internacional, artistas apresentados como da velha guarda, tudo enquadrado dentro  do projecto de um colectivo bem mais jovem.

Esta convergência de várias gerações, com graus de legitimação muito distintos, é evidentemente uma boa maneira de somar recursos escassos, de ganhar massa crítica. Mas é uma lógica de início de carreira, de escassez. Se não há condições materiais, estéticas ou ideológicas, os colectivos esboroam-se. As pessoas separam-se e seguem caminho. Estas novas alianças intergeracionais são a consequência e a demonstração como as carreiras aqui quase não merecem esse nome, não são um percurso, não são lineares, avançam em várias frentes ao mesmo tempo, recuam outras tantas vezes. Calculo que se possa confundir isto com um passar do testemunho de experiência entre gerações, pais e filhos, etc., mas penso que é mais complicado do que isso. A falta de saída ao topo faz deste ambiente um regresso constante a casa dos filhos.

Tudo materialmente muito precário: é significativo que este anunciado regresso das artes ao Porto seja (segundo o artigo) enquadrado num projecto apoiado pela DGArtes, não sei se houve alguma participação mais directa da câmara. Espero que sim. Caso contrário, seriam outra vez as artes a gastarem os seus escassos recursos em outra tentativa de aproximação sem consequências.

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Filed under: Crítica

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