The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte, Avaliação de Desempenho, Família, Nihilismo (por essa ordem)

Dizia-me uma amiga que um dos problemas da arte portuguesa era ter sempre a necessidade de se explicar e a um nível muito básico. A arte daqui não se vê a si mesma como um emprego a sério e portanto precisa constantemente de o demonstrar. Eu respondia-lhe que não é só na arte, acontece a todos e em todo o lado, desde o taxista ao professor ao designer ao político ao designer e ao arquitecto. Todos têm que se justificar e agora ainda mais. Em muitos empregos, a parte mais penosa consiste em demonstrar constantemente que se está a trabalhar. A avaliação de desempenho torna-se no desempenho.

Cada um de nós desbobina constantemente o seu currículo, os seus feitos, os sacrifícios, o gosto que teve em os fazer, sublinhando que não espera qualquer simpatia, que nunca teve nenhum apoio, nunca recebeu nenhum louvor, etc. É uma lenga-lenga identitária. Assume que a nossa identidade, o nosso mérito, vem daquilo que fazemos. E isso, como é óbvio, nunca chega a ser verdade.

O grande segredo, que todos os insiders sabem, é que não interessa. O que fazemos não interessa: o segredo (que não é segredo nenhum) é que a base da nossa identidade não é o que fazemos mas algo mais básico e tradicional: a nossa família e o sítio onde nascemos. Todos os negócios por aqui são negócios de família. Explica-nos o insider que – no fundo, no fundo – fulano é casado/amante/irmão/filho/primo. E que basta saber  isso para saber tudo. Pode-se dormir com alguém para fazer carreira mas o ideal é que os nossos trisavós o tenham feito.

Por aqui não basta perguntar publicamente (tipo Guerrilla Girls) porque não há mais mulheres a exporem nos museus mas perguntar (também publicamente) porque continua a arte a ser um negócio de família. E (antes que o digam) não, o cochicho não é crítica. Ainda se fala muito da arte como etnografia. Seria mais divertido e proveitoso fazer a crítica de arte como se fosse antropologia: as estruturas familiares na génese da Bienal X ou do movimento Y.

Os últimos quarenta anos foram uma anomalia relativa, um período onde as identidades se começaram a estabelecer de outros modos, através do trabalho, de outros tipos de família, outros lugares. O filho de um pastor quase podia de repente ter uma carreira na arte internacional. Agora, com a crise e a maneira como está a ser resolvida, isso acabou: a família e o lugar (na geografia e na escala social) voltam a ter toda a importância. Daí que apareça gente como o Bagão Felix a dizer que a culpa da crise é do divórcio, do aborto e do casamento gay. E de repente os direitos de minorias sejam referendáveis. E se gabem as virtudes de viver de acordo com os meios e com o meio.

Contra isto, vale a pena ser nihilista, recusar ser o que quer que seja excepto o que se faz a cada momento. Recusar toda a discussão que não se faça nesses termos.

Anúncios

Filed under: Crítica

2 Responses

  1. “Já não há tempo para confusões – a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor.”
    UMA FACA NOS DENTES – António José Forte

  2. […] em relação à família: costuma-se dizer que ninguém tem culpa da que tem, tal como ninguém tem culpa de ser branco, […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: