The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Galeria, bar

Neste momento, não vejo muitas diferenças entre as artes e o design, prefiro chamar-lhes “cultura” e deixar a coisa por aí. Calculo que a minha indiferença chateie, que apareça quem diga que o design cumpre as vontades de um cliente e que a arte é autónoma. Ainda na semana passada se falava da possibilidade de encomendar à Joana Vasconcelos um chaimite coberto de cravos para comemorar o 25 de Abril. Era uma ideia da artista? Era uma ideia do cliente? Na verdade, não interessa: o artista actual age quase sempre por encomenda, a sua autonomia é a mesma de qualquer cidadão. É mais ou menos responsável pelas suas próprias decisões e pouco mais. É ligeiramente mais respeitável para ele negociar com um intermediário, um comissário, um director (ou até um crítico ou galerista), do que com um cliente directo (um político ou um mecenas qualquer) – mas, no fim de contas, não interessa muito.

Também não vejo grandes diferenças de tema entre a arte e o design em Portugal. Vejo duas coisas que se adaptam à crise evitando pensar demasiado sobre ela. Nas grandes exposições que nos dizem resumir os últimos anos, a marca mais visível são tralhas encontradas, lixo, objectos, remontados, a formar estruturas, abstracções. Foi a sensação que tive nos prémios EDP. Indo a um bar gourmet é o mesmo: tralhas encontradas, lixo, objectos, remontados, a formar estruturas, abstracções. Indo a qualquer outra das exposições geracionais que parecem estar agora na moda encontra-se a mesma tendência – o que não admira, porque são os mesmos nomes, apresentados aqui como resistentes, ali (ao mesmo tempo) como consagrados e acolá como revelações. O costume: o artista afina a sua arte para que se possa dizer o que se quiser sobre ela. Mobília feita com lixo num museu é índice de precariedade, num bar gourmet é índice de sofisticação feita com pouco dinheiro.

Um amigo meu foi expressamente à inauguração da EDP comer e beber o equivalente ao que pagou na conta da luz desse mês. Galeria, bar, o que se pode pedir mais?

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Paulo diz:

    Umas máquinas de Lavar Roupa.

  2. marco diz:

    Concordo perfeitamente com a análise. Realmente esta é a face mais visível da arte. Mas há artistas que se colocam nos antípodas daquilo que descreves, na sua maioria afastados do meio institucional, dos prémios, das galeristas, dos comissários, das residências e até de alguns espaços alternativos que em muitos casos não passam de “tascas gourmet”. Descobri-los no meio do entulho é tarefa dos críticos… Abraço

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