The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Camas de Cartão

No Porto, uma empresa internacional de fabrico de papel ofereceu camas de cartão a pessoas que dormem na rua. A ideia é bem intencionada (como não podia deixar de ser) mas, como a maioria destas iniciativas de aplicar o design a questões sociais, parece-me que falha a um nível fundamental. O design por estes dias reduz-se a emprestar uma imagem empresarial a tudo em que toca (o mesmo com a arquitectura e boa parte das artes). Tornou-se numa forma subtil de privatização e há problemas que são públicos, sociais.

Neste caso, tenta-se melhorar a dignidade do sem-abrigo e evitar que se confunda a sua cama com lixo (graças a um autocolante). Não tenho maneira de o verificar, mas não me parece que se trate de confusão. É bastante provável que muitas destas camas sejam destruídas propositadamente, de modo a afugentar os sem-abrigo. Viver na rua ainda é associado a doenças mentais, a consumo de drogas, de álcool e a práticas criminosas. Claro que, muitas vezes, tudo isto (quando realmente acontece) não é a causa mas a consequência de dormir na rua. Ser sem-abrigo ainda é visto como um defeito de carácter, até como uma escolha, quando já devia ser óbvio que é um falhanço social (de toda a sociedade) – quando se dizem coisas destas, por exemplo.

Não há melhor maneira de ilustrar estes preconceitos do que aquela chico-esperteza moralista de preferir dar um pão a um sem-abrigo do que dar-lhe dinheiro. No próprio acto de ajudar alguém, assume-se que essa pessoa, na melhor das hipóteses, não será capaz de decidir o que é melhor para ela mesma; na pior, estamos a assumir que nos está a enganar.

Pessoalmente, prefiro dar dinheiro do que comida. Quando não quero ou não posso, não dou. Não sou nenhum Sherlock Holmes. Não tenho vocação para destrinçar quem me engana ou quem genuinamente precisa. Preferia ainda mais dar esse dinheiro sob a forma de impostos que seria redistribuído por gente mais habilitada do que eu – apesar de tudo, ainda acredito que existe redistribuição, claro, infelizmente de baixo para cima. E estes impostos deveriam ir também para escolas, hospitais e transportes que, se fossem financiados por suficientes pessoas poderiam permitir a mais gente ter uma existência realmente digna e integrada.

Em resumo, prefiro o Estado Social à caridade, soluções políticas a soluções privadas. Se não gosto do chamado design social, é porque se resume demasiadas a fazer um rebranding da caridade actualizando-a para uma forma de empreendedorismo privado.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Um Estado Social eficaz não dá tanto espaço de manobra à proliferação da caridade empresarial que mais não é do que uma sofisticada manobra de marketing. Dentro do que temos visto surgir neste país em boa verdade muitos dos cidadãos preferem levar com publicidade e comprar muitas vezes o que não precisam supostamente contribuindo para algo maior a ouvir propaganda e a contribuir para um estado mais coeso e social. Temos visto aparecer muita caridade e campanhas pseudo-pró-ajuda-a-qualquer-coisa que mais não são campanhas de marketing. No entanto não critiquemos as pessoas e as empresas, critiquemos os decisores políticos que muitas vezes preferem produtos formatados, pílulas milagrosas efémeras a procedimentos eficazes e livres (opensource, royalty free) no caso do Design é algo bem evidente, o estado em vez de contratar designers sénior com bons procedimentos alia-se às empresas cujo objetivo é apenas a notoriedade e o lucro contratando essas empresas e despedindo pessoas como se os bons profissionais apenas existissem em contexto empresarial, isto segundo a lógica do triunvirato que nos tem governado nos últimos 40 anos mas em especial nos últimos 3 anos. Em resumo tem tudo a ver com, há quem prefira dar pão e há quem prefira dar meios, a meu ver o estado tem de dar meios, e se quem recebe os meios é capaz de apenas comprar pão ou fazer o seu próprio pão vai a diferença.

  2. […] de parvalhões – como se os adjectivos gourmet ou de luxo já não o fizessem. Na verdade, nem me parecem muito diferentes daquelas iniciativas de arranjar melhores camas de cartão parra dor…. Querem ajudar? Recusem desigualdades obscenas de salário, paguem os vossos impostos e estejam […]

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